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Cultura: O Pão Nosso de Cada Dia

  • anozmundo
  • 29 de jan.
  • 4 min de leitura


[por Adriano A. Barboza | 24/01/26]



A indústria cultural consolidou-se como hegemonia ao transformar visibilidade em mercadoria. O cinema, nesse processo, passou a operar muitas vezes como narrativa padronizada, conduzida a finais previsíveis. A vitória do “mocinho” se impõe após colisões espetaculares, numa lógica de satisfação que nunca se completa.

 

Trata-se de um consumo que cultua a força. Uma força que se estende como poderio, mas que não se sustenta por outro sentido senão o da dominação. O dólar torna-se referência simbólica e cambial, organizando desejos e valores em escala global. Essa hegemonia, contudo, carrega um caminho falso e perigoso, capaz de arrastar consigo os que tomam esse modelo como parâmetro absoluto.

 

A crítica à cultura de consumo não implica negar toda produção popular. A pop art, por exemplo, encontra em Andy Warhol um ponto ambíguo. Seu sentido mais potente emerge na cena underground, especialmente na relação com Lou Reed e o Velvet Underground. Ali, o gesto é menos apologia e mais crítica do sistema, ainda que envolta em intensidade e fragilidade.

 

Esse cenário contrasta com uma produção que vai do besteirol aos filmes policiais de enredo raso. Narrativas fechadas, finais abruptos e ausência de elaboração simbólica produzem apenas repetição. O consumo se retroalimenta sem gerar consciência ou amadurecimento coletivo.

 

Em meados dos anos 2000, migrei para o Paraná. Encontrei ali experiências culturais interessantes, com movimentos relevantes no teatro e na música. Havia possibilidades reais de produção artística consistente, com espaços de circulação e experimentação. Contudo, mais recentemente, tornou-se perceptível um encaminhamento industrial-comercial que voltou a ganhar corpo de modo preocupante, tanto no campo da cultura quanto no da educação.

 

Esse movimento se manifesta menos por rupturas explícitas e mais por um esvaziamento progressivo de sentido. Na educação, assume a forma de uma gestão orientada por métricas e plataformas digitais que prometem eficiência, mas tendem a reduzir a complexidade do processo formativo. A promoção de resultados passa a operar como falsa valorização: dados são atenuados, desempenhos são artificialmente estabilizados e o conflito inerente ao aprendizado é neutralizado. Sob pressões institucionais, práticas como aprovação automática e flexibilização excessiva de critérios produzem históricos formais que pouco dizem sobre o percurso real do sujeito. O efeito disso não é apenas pedagógico, mas ético e socialmente grave.

 

Relatos críticos nesse campo — vindos de professores, sindicatos e parlamentares — têm apontado tensões na condução das políticas educacionais, sobretudo no que diz respeito ao uso de plataformas de controle e à centralidade de metas administrativas. Ainda que não haja conclusões oficiais que dimensionem plenamente essas práticas, o debate público revela um mal-estar estrutural na gestão da educação, em que a forma tende a se sobrepor ao conteúdo.

 

Movimento semelhante pode ser observado no campo da comunicação pública. A antiga TV Paraná Educativa passou por reformulações significativas, assumindo um perfil voltado ao turismo e a uma grade mais ampla, alinhada a estratégias de promoção institucional e desenvolvimento socioeconômico. Trata-se de uma decisão de governo que, embora legítima em seus objetivos declarados, suscita debates sobre o lugar da cultura e da educação nos meios públicos de comunicação. Quando o tom formativo cede espaço à lógica de divulgação e entretenimento, corre-se o risco de reduzir a cultura à condição de vitrine.

 

Nesse mesmo horizonte, a Rádio Educativa FM 97.1, embora oficialmente mantida como emissora pública com programação cultural, jornalística e educativa, apresenta uma estética de recepção ampliada. Locuções, seleções musicais e formatos que evocam registros populares e sessões de entretenimento convivem com conteúdos formativos, nem sempre em tensão produtiva. Essa configuração, percebida a partir da minha experiência de ouvinte, pode ser lida como sintoma de uma diluição do tom educativo, mais do que como sua supressão. Não se trata de negar o valor institucional da rádio, mas de reconhecer as tensões entre sua função pública e estilos de circulação sonora mais próximos do mercado.

 

Nesse contexto, o “fake” deixa de ser exceção e passa a integrar o jogo simbólico. O problema se agrava quando espaços historicamente destinados à cultura e à educação se afastam de sua função integradora. A cultura passa a ser tratada como mercadoria para consumo externo, enquanto perde densidade como espaço de elaboração, autorreflexão e produção de sentido. O resultado é um esvaziamento das identidades e uma fragilização da experiência cultural como instância de mediação social.

 

Essa lógica não é neutra. Ela responde a tendências políticas e econômicas que recusam o papel crítico e propositivo da cultura. Ao diluí-la, impede-se que ela opere como campo de elaboração simbólica e de formação de consciência. O que se perde, nesse processo, não é apenas um conjunto de práticas culturais, mas a própria cultura em sua essência.

 

Diante disso, é fundamental pensar o estímulo e o fomento da produção cultural como cadeia econômica. Não se trata de “vender” cultura, mas de compreender seu encadeamento produtivo. Investir em cultura é investir em desenvolvimento sociocultural, com retorno que ultrapassa o econômico.

 

A percepção meramente mercantil falha ao não distinguir consumo de produção simbólica. A cultura, quando bem fomentada, gera amadurecimento coletivo, capacidade crítica e modos mais elaborados de vida social. Ela cria condições para a autogestão, para a reflexão e para a construção de sentido.

 

É disso que se trata quando se fala em cultura como o pão nosso de cada dia. Não um adorno, não um produto vazio, mas um processo vital. Um investimento inteligente em arte e cultura vale mais do que qualquer circuito de consumo raso. É aí que reside sua potência.

 

O vídeo que segue apresenta um trecho do programa MateCast – episódio #044, no qual o ator Jair Kobe, interpretando o personagem Guri de Uruguaiana, entrevista Hique Gomez, um dos criadores do espetáculo Tangos & Tragédias. Em sua fala, Hique Gomez destaca a importância do investimento em cultura, evidenciando seus impactos culturais, econômicos e sociais que, de modo mais amplo, revelam outra face da mesma moeda que atravessa a experiência de todas as brasileiras e de todos os brasileiros, em suas múltiplas regiões.









Foto: Acervo Canva

Vídeo: Trecho do episódio #044 do programa MateCast editado e postado no Canal de A NOZ [mundo] no YouTube

 
 
 

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