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O Amigo Enilton

  • anozmundo
  • há 3 horas
  • 7 min de leitura



[ por Adriano Andrade Barboza | 28/06/26 ]



 Foi por volta do final de 1992 que conheci Enilton, quando passei a trabalhar como redator e produtor de vídeo numa agência de propaganda. Enilton fazia parte da "diretoria", juntamente com seu cunhado, na recentemente criada agência. Ali, entre outros colegas, pude viver um clima que, guardadas as proporções, lembrava aquilo que hoje se imagina dos setores de criação das grandes empresas de tecnologia: um ambiente descontraído, porém moldado como uma oficina de produção conjunta entre criação e vendas. Tudo era compartilhado em movimento comum, ainda que cada área preservasse sua autonomia dentro de um conjunto integrado.

 

Enilton era aquele sujeito que sabia e transbordava um ar cultural voltado à vocalização de parte de um continente invertido que ainda não havia ganhado essa formulação sul-sul, mas que já era América Latina na veia.

 

A agência localizava-se num dos pontos mais centrais da Avenida Bento Gonçalves, em Pelotas. Isso dava o tom de comunicação de um pequeno grande mundo para nós, embarcados numa época em que ainda não havia internet. As artes eram produzidas na prancheta pelo habilidoso Fernando, dono de uma criatividade, senso estético e capacidade de composição dos melhores que já vi.

 

 Havia também Cristiano, o abre-alas comercial da casa. Jovem, empolgado e dotado de uma verve desafiadora, apresentava os briefings e procurava levar aos clientes algo melhor do que haviam imaginado ou, ao menos, suficientemente próximo de suas expectativas. Como resultado, muitas vezes o trabalho parecia superá-las, e isso, creio, o animava tanto quanto animava a nós, do brainstorming — ao qual ele também contribuía — e da produção.

 

Com o tempo, outros chegaram.

  

Em alguns momentos atuei para além da redação, trabalhando na produção eletrônica, na atuação como ator e na direção de vídeos comerciais, áreas das quais, em boa medida, eu me originava e não propriamente da escrita.

 

De todo modo, entram Enilton e seu cunhado Bruno na condução dessa proposta. A casa era grande e, numa das salas adaptadas para o espaço profissional, certo dia deparei-me com um roupeiro repleto de vinis. Sim, porque, àquela época, produzíamos trilhas para vídeos a partir de discos. Desde então, o vinil passou a representar, para mim, um modo de ouvir música que ainda gostaria de cultivar, não apenas por seu mecanismo, mas pela experiência que proporciona e pelas lembranças que desperta ao exigir de quem escuta uma interação mais atenta e menos automatizada. Creio que essa relação com o vinil permaneça viva, sobretudo para o amigo Enilton.

 

Contudo, o mais impressionante não era a imensa coleção de discos, mas sua diversidade. Ou, mais especificamente, sua abrangência em qualidade musical e representatividade cultural. Ali estavam autores e músicos de primeira linha, compondo tanto a cultura regional mais nuclear quanto aquela que se expandia pela América Latina.

 

Minha passagem pela agência terminou, creio, cerca de seis meses após minha chegada, coincidindo com o início da temporada de espetáculos em que participava como ator na peça O Médico e o Monstro. A produção gráfica de cartazes e folders passou pelas mãos de Fernando, cuja leitura refinada dos elementos literários vertidos para a adaptação cênica conseguiu materializar, em duas dimensões, aquilo que a peça do Grupo Teatro Frio propunha objetiva e subjetivamente.

 

Meu reencontro com Enilton e com suas raízes latino-americanas, agora manifestas em sua atuação como jornalista cultural e político independente, ocorreu tempos depois, quando eu já vivia no Paraná. O contato mais próximo foi retomado por intermédio do poeta e amigo em comum Alvaro Barcellos, que me convidou a auxiliar Enilton em algumas questões estéticas relacionadas a uma proposta de site que viria a complementar o já existente Américas, programa e blog vinculados à RádioCom de Pelotas.



 


Eu já conhecia seu trabalho desde os tempos em que ainda morava em Pelotas e acompanhava o reconhecimento que conquistava. A partir do Américas, Enilton tornou-se amplamente reconhecido pela profundidade com que conduzia as "charlas", atravessando leituras culturais, políticas e históricas, acompanhadas de trilhas e músicas que situavam a cultura latino-americana dentro de seu próprio contexto sociopolítico e cultural.

 

Tratava-se de uma abordagem voltada para uma realidade cuja sinceridade muitas vezes parece ter se esvaído dos discursos contemporâneos, mas que não perde sua força por deixar de ser mencionada ou reconhecida de forma mais objetiva. Afinal, ela é vida, e vida se vive. Mesmo quando deixamos de considerá-la em seus contextos históricos e culturais, ela permanece atuante, como raiz que sustenta a própria cultura em sentido mais amplo. Sua ausência de reconhecimento não a diminui; apenas revela o quanto continua presente mesmo quando deixamos de percebê-la.

 

Fazia isso com propriedade conceitual e conhecimento de uma realidade cuja fala pedia passagem e já não mais pararia. Com o tempo, porém, Enilton voltou-se também para a vida no repecho rural, onde semeia e colhe aquilo que sempre plantou: utopia e esperança no melhor sentido dessas palavras.

 

Guardo boas lembranças da partilha de um chimarrão substancioso, verde e amigo, entre pessoas cujo destino é escrito pelos próprios passos, em alguma medida empenhadas em anunciar histórias e ideias no mundo da indústria, do comércio e do consumo. Passos que nunca são definitivos, mas que seguem rumo ao caminhar. Um caminhar propenso ao infinito que, neste caso, apenas atravessou um antes e um depois que já estavam ali, perenes e concisos, em expansão, na intempérie nativa e amiga de quem talvez ainda não soubesse lidar com o vento e com o tempo.

 

Mas, na medida em que se permite adentrar essa perspectiva, a experiência se corporifica em aprendizado para lidar com tudo o mais. Afinal, é preciso tempo para aprender aquilo que antes apenas se desejava saber. E talvez se trate justamente disso: de um olhar cujo conflito não é o lar, mas o sentido digno da comunicação e do andar.

 

Uma liberdade que salga o mar porque é conjunta. Do contrário, não seria mar, mas apenas um pequeno aquário dentro de um copo minúsculo, onde se deposita uma faísca sem maior importância diante do mundo que a circunda.

 

E assim seguem os lados das coxilhas e da campanha, onde se consegue permanecer convicto dentro de uma casa voltada ao extremo da América do Sul. Uma cidade real que permitiu a Vitor Ramil criar Satolep, cujo avesso está em verso e cujo inverso repousa no próprio berço aberto de um futuro nostálgico que, na verdade, sempre foi.

 

E assim tu vai... e navega a vida sobre a canção dos poetas e daqueles que são, além de poetas, algo mais. Como dizia Lacan ao afirmar que não era ele poeta, mas sim poesia.

 

Enilton e eu temos conversado ocasionalmente em breves papos. Dir-se-ia: códigos compartilhados via WhatsApp, feitos de artigos, leituras e outras palavras do não dito.

 

Atualmente, ele segue apresentando sua escrita pelo Américas em formato de blog. Alguns de seus conteúdos estarão também presentes aqui, no site-blog A NOZ [mundo]. Com boa vontade, pretendo conciliar a rotina de atividades para suprir o "nosso" espaço comum tanto quanto possível, dentro da disponibilidade de tempo que as atividades profissionais me permitem.

 

E creiam: farei o máximo possível para dar maior volume a esta pequena casca de noz que mira o oceano subjetivo do pensar coletivo, compartilhado e, mais precisamente, partilhado.


 

Segue uma publicação recente do amigo Enilton Grill Júnior, oriunda do Américas no Facebook.


Links do Américas no Facebook e no Blogspot:



Observação: Enilton Grill Jr. adota o estilo de escrita de José Saramago, mantendo a primeira letra de cada frase em minúscula.






[ por Enilton Grill Júnior | publicado no Facebook em 22/06/26 ]


chove na manhã fria de satolep



«o futuro pertence a quem souber libertar-se da ideia tradicional do trabalho como obrigação e for capaz de apostar numa mistura de atividades, onde o trabalho se confundirá com o tempo livre, com o estudo e com o jogo, enfim, com o "ócio criativo".»

 

domenico de masi

 

«há uma falha, uma falha em tudo.é assim que a luz entra.»

 

leonard cohen

«o burocrata acerta nove vezes em dez. o criativo erra nove vezes e acerta uma. entretanto, uma vez que acerta, abre caminhos para a humanidade.»

 

domenico de masi

 

 

o jardineiro do vento


havia um homem que semeava relógios

nos terraços do ar,

um homem que removia espinhos do calendário

para que o pão não tivesse gosto de derrota.

enquanto a cidade trocava de pele

como as serpentes do esquecimento,

ele mantinha uma lâmpada de sal

acesa entre os dentes da noite.

cantava.

e as janelas aprenderam a respirar.

trazia o mediterrâneo dobrado no bolso,

como quem carrega uma carta nunca enviada.

trazia gaivotas costuradas à sua memória,

barcos feitos da madeira dos abraços,

e uma chuva pequena, doméstica,

para regar os vasos da alma.

onde outros viam ruínas,

ele encontrava sementes.

onde outros erguiam muros,

ele abria caminhos com a navalha azul de uma canção.

porque há vozes que passam,

e vozes que ficam.

vozes que são fumaça,

e vozes que servem de lenha para o inverno.

você foi fogueira,

farol,

porto,

e vento a favor.

uma árvore cantando no meio da tempestade.

os anos chegaram devagar,

como os gatos chegam aos telhados,

sem pedir permissão.

e foram deixando prata nas margens,

sulcos na testa,

sinos de experiência no olhar.

mas nunca conseguiram fechar a porta

para aquele menino

que brincava de bolinhas de gude

com os planetas.

agora o tempo senta-se à sua mesa

como um velho amigo.

vocês compartilham silêncios,

azeitonas,

memórias.

e enquanto o mundo corre atrás de miragens,

você continua ensinando

que a beleza cabe em uma cadeira,

em qualquer rua,

na sombra generosa de uma figueira,

na humilde revolução da ternura.

porque há vozes que passam,

e vozes que permanecem.

vozes que são fumaça,

e vozes que juntam lenha para o inverno.

e você continua cantando,

jardineiro do vento,

afinando a luz

nas varandas do tempo.

enquanto toda uma geração

aprende que envelhecer

é transformar a memória

em uma forma de música

 



el jardinero del viento(homenaje a joan manuel serrat)

letra y música: fco. muñoz-martín

canta: ismael álvarez


nota

 

na arte de joan manuel serrat reside uma forma serena de compreender a passagem do tempo: não como perda, mas como refinamento.

 

suas canções, cada vez mais profundas, parecem saber que envelhecer é aprender a nomear o essencial sem pressa, com a ternura de quem encarou a vida de frente e ainda escolhe cantá-la.

 

há uma sabedoria em suas palavras que não pontifica, mas acompanha; que não nega a ferida, mas a transforma em canção.

 

e assim, com a dignidade da experiência vivida, serrat nos ensina que o tempo, bem vivido, não definha:

ele refina.



Créditos das imagens e do vídeo: Figura 1: composição realizada com elementos do banco de imagens do Canva, fotografias de Enilton Grill Júnior e recursos de inteligência artificial. Figuras 2 e 3: acervo fotográfico de Enilton Grill Júnior. Vídeo: canal Francisco Muñoz-Martin, no YouTube. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cbZ0JOeof0A.


 
 
 

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