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É com Fé Que Eu Vou e [En]canto de Estranhamento

  • anozmundo
  • 29 de jan.
  • 4 min de leitura

[por Adriano A. Barboza] --- 26.out.25  | 


É com Fé que eu vou — e o canto do estranhamento

 

Posso dizer, sem medo de errar, que Chico e Caetano são duas forças vivas — poéticas e melódicas — que têm forte sentido não só na música, mas também na vida brasileira. Fazem tudo pelo lado humano e pelo bom sentido do sentir, com o valor da palavra cantada. São, realmente, forças vitais que se comunicam com a vida, alimentando outros sentidos e aprendendo com eles — e os apreendendo, por sua vez — numa retroalimentação transformativa, necessária para se fazer novo de novo: à altura de não ser mais o que se foi, mas de buscar o que se pode ser e se é. Isso, para mim, é fé — a confiança silenciosa na vida e em seu movimento a partir do Criador.

 

Assim como tantas outras figuras maravilhosas da nossa música, não se fazem perecíveis ao tempo, porque são legítimos sentimentos e expressão de qualidade na natureza da música. Eis que a música, em harmonia com a cultura do nosso tempo e com a vida, encontra em Caetano a mais pura tradução — justamente por ser autêntico, simples e, ao mesmo tempo, sofisticado; sobretudo filosófico, mas também prático, no melhor sentido da palavra.

 

Pois se encontra sempre, na boa palavra traduzida em canção — de Caetano ou de outro artista voltado para a bondade e a generosidade de partir e expressar o que se sente — uma combinação necessária e bela, como o azul celeste que se encontra com o mar da mesma cor, onde a profundidade sorri ao sol que cintila sobre as águas, vertendo uma harmonia notável entre luz e cor.

 

Caetano, para mim, é algo sem igual. Neste texto, falo dele como posso: reconhecendo o dom raro de falar cantando — ou cantar falando — sobre a vida em si. Há algo de vivo e genuíno nisso. Considerando os dilemas de uma vida pública, a conciliação entre fama e espontaneidade é um desafio imenso. Mesmo assim, Caetano parece nunca perder o tom. Ele nos brinda o tempo todo e chega aos oitenta anos com a leveza de quem permanece inteiro.

 

Eu diria que Chico e Caetano são essenciais para compreender como tudo se transformou quando eles próprios reinventaram a leitura da música e da palavra, especialmente nos tempos difíceis da vida brasileira na década de sessenta. A partir deles, orbitaram — e ainda orbitam — muitas coisas boas. Faz sentido considerá-los, e é uma sorte termos figuras tão interessantes e amorosas com a vida. São capazes de contemplar tudo para além de um simples expressar o que se sente — o que, por si só, já seria muito.

 

Tudo faz sentido quando essa comunicação se dá não apenas com a arte, mas com a própria humanidade: uma comunicação loquaz, feita de puro sentimento e valor humano. E, claro, há muitos outros talentos que iluminam a canção e a arte, compondo sentidos múltiplos, abertos à leitura e à escuta. Todos são valorosos. Centralizar apenas em Caetano e Chico — ou em qualquer outro artista — seria limitar a beleza e a plêiade de sentidos que se pode apreender com um bom olhar.

 

Quanto a Caetano, especificamente, devo dizer que ele sempre me impressionou. Percebi, com o tempo, a riqueza de sua existência: impávida, sutil e, ao mesmo tempo, franca. Honestamente, há coisas que não se explicam, pois as palavras seriam limitantes diante dos sentidos. Combinar tudo isso com coerência e beleza é algo muito precioso.

 

Caetano é, de fato, uma figura superbacana. Sua poesia em Força Estranha, por exemplo, é pura potência de sentimento. Suas palavras e a força da canção não deixam dúvida sobre seu valor — esse jeito de ser de um “zen baiano”, que louva o Criador e admira, reconhecendo a beleza da criação.

 

Lembro-me, ainda criança, brincando na sala de um casal vizinho que cuidava de minha irmã. Eu, eventualmente por lá, ouvia Alegria, alegria na televisão enquanto brincava. Assim é Caetano: alguém que passa e deixa marcas de um olhar que traduz a existência, fazendo-nos sentir e perguntar sobre o destino do próprio existir — mas com o surpreendente valor da alegria de estar vivo e viver.

 

E Caetano ainda nos brinda com sua pensata: “Existirmos: a que será que se destina?”. Cada um saberá dizer o que o toca, descobrindo esse mesmo encanto ao navegar nas palavras cantadas que fluem pela vida.

 

Sendo assim, compondo o olhar sobre esse mais novo octogenário, que parece um menino em sua alegria, segue o videoclipe da canção Força Estranha.

 

“Alegria, alegria” é Caetano — que passa e deixa marcas de um olhar capaz de traduzir a existência, fazendo-nos sentir e perguntar sobre o destino do próprio existir.






Imagens:

Foto: Sergio Lima / AFP (março de 2022) editada por A NOZ [mundo]

Videoclipe: A NOZ [mundo] outubro de 2025

 
 
 

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