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Um Estado de Coisas

  • anozmundo
  • 24 de mai.
  • 13 min de leitura


[ por Adriano Andrade Barboza | 24/05/26 ]


O Indivíduo e a Dissolução de Si no Social

 

O que se vê na atualidade brasileira é um acumulado que transborda negativamente sobre quem é origem e destino final de tudo. Tal qual um antigo anúncio de campanha de trânsito dizia: “na vida, todo mundo é pedestre”. Ou seja, por mais que exista um peso de status, representatividade ou poder essencialmente hierárquico, todas e todos seguem sendo seres humanos que requerem e dependem de condições e elementos vitais de subsistência — física, psicológica, emocional, mental, simbólica e intelectual.

 

Constituem-se, assim, em semelhantes na condição humana, embora diferentes em suas respostas, capacidades e modos de existir. E é justamente dessa diferença que emerge a complexidade da vida coletiva, mas também a condição fundamental de se viver integrado, de um modo ou de outro, em relação constante com o outro e com os outros num sentido mais amplo.

 

E assim começo esta análise, buscando perceber aquilo que se tenta definir como elemento ou aspecto identitário, mas que, embora assim se apresente, carrega o risco permanente de produzir justamente o movimento oposto: uma desidentificação real de si a partir de um peso excessivo sobre aquilo que se toma como baliza.

 

Por ser da ordem do amplo e do genérico, dissolve-se justamente aquilo que, em essência, permite independência, singularidade e um desenho particular de sentido próprio. Perde-se, assim, a possibilidade de compor e viabilizar um modo de autodeterminação do sujeito individualizado, não apenas enquanto estrutura física e material, mas também como presença subjetiva, ética e de personalidade — um ser humano distinto, semelhante aos demais, mas ainda individual em forma, experiência, sentido e modo próprio de existir.

 

O indivíduo é isso: indivíduo. Não apenas alguém por estar em grupo. E, como indivíduo, possui particularidades específicas que merecem ser preservadas. Contudo, numa sociedade em que o sujeito ideal pesa mais do que um verdadeiro ideal do sujeito, acaba por ruir a noção do que é importante na própria natureza individual.

 

O sujeito deixa de existir como experiência concreta e passa a existir como expectativa de desempenho, imagem e adaptação. Faz-se produto de um ideal a ser buscado, cujo prêmio prometido seria a ausência de problemas. Porém, diante das precariedades e das dificuldades materiais e sociais, tal estrutura revela sua fragilidade. O indivíduo, que se pretende mais independente, torna-se profundamente dependente de uma estrutura social que impõe regras, modos de convivência e formas idealizadas de estar no mundo.

 

Busca-se, assim, uma zona de privilégios tomada como benefício, embora nem sempre corresponda a verdadeiras benesses existenciais. E, ao se vincular excessivamente a esse modelo, o sujeito passa a depender de formas de vida que podem preservar aparência, mas não necessariamente uma correspondência real com virtude, equilíbrio ou legítimo bem-estar. Afinal, nem todo conforto representa plenitude, e menos ainda toda adaptação significa saúde ou realização verdadeira.

 

Nesse caso, o que parece importante destacar é que, diante de um estado de coisas marcado pela desestabilização e pelo conflito individual em interação com o plano social, muito do que se agrava decorre da ausência de bases existenciais práticas de subsistência e desenvolvimento. Bases estas que deveriam ser favorecidas por uma compreensão lúcida das necessidades humanas e pelo devido atendimento das mesmas, algo que somente se torna possível a partir de uma leitura verdadeira dos problemas para que possam, de fato, ser solucionados em alguma medida.



Dignidade, Estrutura Social e Vida Coletiva

 

A dignidade, nesse sentido, surge como chave fundamental para garantir aquilo que possa ser compreendido como um bom andamento social e uma direção mais responsável das ações coletivas. Trata-se de uma perspectiva que deve ser regida e favorecida pela própria ação política, sobretudo na forma como compreende e estabelece relação com os laços sociais, respeitando os indivíduos em seus direitos essenciais, que devem permanentemente ser observados e buscar serem atendidos.

 

Desse modo, torna-se possível garantir um caminho mais coerente de desenvolvimento, cuja realização passa inevitavelmente pela ordem política enquanto organização social composta por indivíduos e coletividades detentores de deveres e direitos efetivos. E tais elementos não permanecem apenas no plano formal. Manifestam-se concretamente na experiência de vida do sujeito e em seu entorno social, seja de maneira institucionalizada ou nas relações cotidianas mais informais.

 

Afinal, pode-se dizer que existe uma tensão necessária — e até saudável — entre as dimensões do coletivo e do individual. Contudo, para que haja um caminho de valores e acontecimentos verdadeiramente positivos, torna-se fundamental preservar e integrar ambas as instâncias numa relação equilibrada, natural e efetivamente realizável, cuja garantia acaba por encontrar sustentação também na ação última do sistema jurisdicional.

 

De todo modo, quando as relações sociais passam a considerar a dignidade dos sujeitos em seus aspectos essenciais — desdobrando-se em formas mais amplas e adequadas de atendimento às necessidades e demandas humanas —, torna-se possível encontrar um movimento mais afirmativo de justiça e de valores comuns minimamente equitativos e integrados. E é justamente nesse ponto que pode emergir um estado mais concreto de melhoria social, capaz de afetar positivamente tanto o indivíduo quanto a sociedade como um todo, haja vista ser o sujeito parte integrante e fundamental dela.

 

Dessa relação e desse modo de vida experiencial decorre a possibilidade de expressões culturais diversas, capazes de ampliar formas de comunicação, transmissão e troca de valores entre os indivíduos e a própria sociedade. Uma sociedade que, ao fim, também se autossignifica. E, nesse movimento, pode permitir uma busca mais libertadora de ganho experiencial, favorecendo aprendizado, ressignificação e aprimoramento das relações sociais, sobretudo quando aquilo que antes permanecia restrito, silenciado ou sem expressão passa a encontrar possibilidade concreta de reconhecimento e elaboração.

 

Do mesmo modo, torna-se possível manter e ampliar modos de vida mais dignos, sustentados por uma estrutura social e urbana verdadeiramente voltada às necessidades reais das pessoas. Afinal, muitas delas seguem submetidas a consequências cruéis e brutais decorrentes de ações antiéticas tanto no campo público quanto no privado. E isso acaba por traduzir justamente aquilo que menos se deseja: um estado da sociedade atravessada pelo crime, a criar mais precariedade, miséria generalizada e modos objetivos e subjetivos, diretos e indiretos, de autodestruição.

 

Tal realidade não deve ser enfrentada apenas de modo repressivo objetivo e hostensivo, embora a repressão se faça necessária diante da ação criminosa e autodestrutiva de maneira ativa e em extensão concreta. É preciso compreender, sobretudo, que a vida social possui caráter sistêmico, constituindo-se por múltiplos vetores que se realizam materialmente em torno da vida do cidadão-indivíduo. Seu ponto de referência é a própria experiência cotidiana: sua moradia, sua rua, seu bairro, sua cidade, seu estado e, por consequência, o país.

 

Eis a ordem da coletividade que precisa ser observada, mapeada e diagnosticada como um corpo maior, no qual se deve buscar maior fluidez urbana e saúde social por meio da estrutura e funcionalidade das cidades. Trata-se de pensar objetivos e resultados humanos como finalidade última. Portanto, todo investimento verdadeiramente comprometido com qualidade de vida deve voltar-se à realidade concreta vivida diariamente pelas pessoas, pois nenhum brinde, favor momentâneo ou regalo eleitoral será capaz de melhorar — ou sequer tornar menos difícil — a experiência cotidiana da sociedade.




Urbanização Precária, Abandono e Violência Estrutural

 

Em dada medida, ao se observar um modo de funcionamento da estrutura social que cometeu — e ainda comete — inúmeros erros, sobretudo naquilo que se manifesta de forma mais objetiva e ativa nas cidades, percebe-se um processo em que tudo se torna mais pesado e difícil para o cidadão-indivíduo. Trata-se daquele que precisa utilizar transporte público lotado, percorrendo longas distâncias em trajetos que geram não apenas prejuízos ambientais e elevados custos econômicos, mas também desgastes emocionais e comprometimentos da saúde física e mental.

 

Tal dinâmica torna a vida diária profundamente cansativa e, por consequência, geradora de adoecimento emocional e psíquico. Isso ocorre a partir de uma lógica estrutural que amplia distâncias físicas justamente em relação às soluções de atendimento, à entrega de estrutura básica e ao bom funcionamento urbano voltado às necessidades sociais. Assim, prevalece uma organização funcional sustentada por formas de ligação entre regiões cada vez mais afastadas, enquanto serviços mais eficientes e aparatados concentram-se em áreas distanciadas das periferias da cidade.

 

As periferias, por sua vez, tornam-se não apenas precárias, mas também relegadas à violência e a um estado contínuo de sofrimento, no qual se faz necessário, como forma de sobrevivência, naturalizar circunstâncias nocivas ligadas ao abandono e ao desamparo — isso quando ainda existe alguma possibilidade de adaptação, resposta ou defesa mínima da própria integridade física e moral, que, de um modo ou de outro, acusa e reivindica movimentos de desconstrução ou libertação de um conjunto de circunstâncias nocivas que parecem atingir um limite. Limite este que, a partir do próprio instinto de sobrevivência, buscará, na primeira oportunidade, algum modo de ruptura, desvencilhamento ou liberação dessas formas de subjugação e submissão, como tentativa natural de afastamento do sofrimento.

 

Trata-se de uma parcela da sociedade que existe, mas frequentemente não é vista e menos ainda assistida pelo centro estruturador público, constituído de poder legal e econômico para gerir e buscar construir uma cidade viabilizada e direcionada ao desenvolvimento socioeconômico, político e cultural.

 

É preciso perceber que existe um modo coletivo de tratar questões sociais que, em geral, opera no atacado, enquanto a corrupção e o desvio de recursos costumam ocorrer no varejo. Contudo, em dado momento, tais práticas passam a fomentar laços estreitos com grupos criminosos, ampliando a violência e a ocupação gerencial de regiões de moradia desassistidas pelo Estado. Assim, produz-se uma falha estrutural grave, na qual a vida cotidiana e seus custos ordinários e básicos passam a funcionar quase como um pedágio permanente — algo visível até mesmo em grandes cidades como Rio de Janeiro.

 

De maneira semelhante ao que ocorre com o indivíduo autor de delito dentro dos presídios, também a cidadã e o cidadão — partes mais importantes da vida social e humana — acabam coisificados. E a perspectiva de criação de portas de saída transforma-se num anseio sustentado pela compreensão de que a base de muitos problemas reside justamente no poder econômico. Assim, constrói-se a ideia de que, para haver justiça, deve-se confiar o voto a representantes que, em diversos casos, tornam-se beneficiários de favorecimentos ilícitos. Um poder que, não raramente, mostra-se tão forte quanto aquele estabelecido por organizações criminosas, muitas vezes funcionando como agente corruptor daquele que deveria cuidar da saúde social.

 

Vende-se a própria saúde pública e social, deixando pessoas ainda mais distantes de soluções concretas, dentro de uma lógica enganosa e criminosa semelhante àquela praticada por quem exerce a violência direta. Violência esta financiada pelo próprio cidadão-indivíduo que, por si, constitui elemento celular fundamental da estrutura humana e social, morando em algum lugar e sustentando, por meio de impostos e arrecadações, estruturas que acabam por colocá-lo, direta ou indiretamente, em maior ou menor condição de servidão. E isso se revela, inclusive, na criação de leis destinadas menos a cumprir a justiça do que a impedir o funcionamento de outras leis capazes de barrar a malversação do dinheiro público destinado ao bem-estar social.

 

Se é possível observar países menos atravessados por tais problemas e com melhores índices de qualidade de vida, também é possível pensar que, dentro da realidade brasileira, seria plenamente viável construir e qualificar uma estrutura firme, responsável e comprometida com os direitos da população. Uma estrutura cujo funcionamento possa tornar-se verdadeiramente fiscalizável e efetivo, voltado à resolução concreta de problemas fundamentais — e não apenas à promoção de uma aparente preocupação com a vida durante períodos eleitorais.

 

Afinal, inúmeras brasileiras e brasileiros dependem do Estado para usufruir daquilo que já deveria estar assegurado e em pleno funcionamento, sustentado por cada centavo que circula e compõe a economia nacional. Economia esta que deveria servir de maneira mais condizente à sua função primordial: favorecer um estado real de dignidade para que as pessoas, enquanto cidadãs, possam buscar desenvolvimento pessoal e coletivo a partir de condições mínimas, mas verdadeiramente humanas e adequadas.

 

E faço uma digressão considerando que a vida é mais e está contida no indivíduo. Quando o estereótipo ou o modelo de sucesso financeiro e material se torna o princípio de uma busca, perde-se a essência: quem vive em si e quem necessita de melhorias sociais é, antes de tudo, alguém com história, limites, afetos e necessidades específicas para viver. Afinal, não existe sofrimento abstrato. Toda precariedade atinge alguém de forma concreta.




Política, Corrupção e Normalização do Sofrimento Social

 

Olhar para o atual cenário, rondado e atravessado por interesses “eleitorais”, mas essencialmente político-sociais, acaba sendo o ponto fundamental desta análise.

 

Enquanto se olha para a violência como algo autônomo, sem matriz de origem ou estrutura constituída por diversos fatores históricos, econômicos e subjetivos, mergulha-se numa ilusão conveniente. Busca-se preservar aquilo que pode ser tomado como aspecto compensatório ou estado de conforto, como se isso fosse capaz de superar o conjunto de problemas e insatisfações que alguém venha a viver.

 

Contudo, acaba-se constituindo o excesso e a abundância como se fossem garantias de afastamento da insatisfação ou do desconforto emocional, quase sempre gerados por múltiplos fatores, mas que passam a ser percebidos como passíveis de diluição apenas pela esfera do poder econômico.

 

E, embora esta seja uma dimensão importante, acaba-se simplificando questões existenciais complexas a partir de uma lógica reduzida quase exclusivamente ao aspecto econômico.

 

Em muitos casos, sobretudo diante de condições de precariedade, escassez ou ausência de atendimento mais amplo das necessidades humanas, passam a ser consideradas possibilidades de ganho ilícito ou desonestamente obtido como formas de alcançar liberalidades e condições de conforto a qualquer preço. Um preço que, muitas vezes, não é devidamente dimensionado, mas que, de um modo ou de outro, acaba sendo cobrado.

 

No entanto, o problema social advém de um estado de coisas coletivo e, embora coletivo, reflete duramente sobre o sujeito em sua suposta individualidade.

 

Há a ideia de soluções especiais, como se situações de privilégio colocassem determinados indivíduos acima de muitos problemas. Isso se torna ainda mais perceptível diante da dificuldade material. E, nesse pensamento, corresponde a uma visão mais íntegra de valor: “com muito se vive, com pouco se passa”. Numa jornada de empenho, esforço ou mero permitir-se viver, a ideia de usufruir de muito conforto produz uma sensação de distanciamento da precariedade. Contudo, a precariedade não é apenas econômica. Muitas vezes, ela é da ordem da alma, da ética e da própria capacidade de reconhecer o outro como semelhante.

 

Dentro de uma perspectiva analítica de ordem psicológica, talvez seja possível dizer que quanto mais profunda a deficiência emocional e ética de alguém, mais tenderá a recobrir sua própria presença com elementos compensatórios. Quase como oferecer a uma pessoa gravemente adoecida um carro novo: ainda que o objeto possa produzir alguma sensação momentânea de satisfação ou mesmo deslocar a atenção para outra coisa, isso não altera o fato de que ela continuará doente e, muitas vezes, terá dificuldade até mesmo para conduzi-lo de maneira confortável. O problema maior permanece. E, por estratégia — consciente ou não —, desloca-se a atenção para outro ponto, enquanto a origem do sofrimento segue praticamente intacta.

 

Passo primeiramente por essa perspectiva porque ela permite pensar, de modo mais objetivo, aquilo que se vive como desigualdade ou mesmo como prejuízo social. Trata-se de indivíduos em conjunto, mas nunca totalmente iguais. Ainda que exista algo da ordem do igual, isso pertence mais às estruturas e aos direitos que devem servir às diferentes pessoas de maneira igualmente objetiva e funcional.

 

É nisso que se concentra esta análise: olhar para um período eleitoral em que muitas coisas superficiais acontecem — e outras nem tanto —, reconhecendo, felizmente, a importância da continuidade de políticas públicas que funcionam, mas compreendendo também que avanços reais exigem ampliação de alcance, integração e responsabilidade social mais duradoura do que o simples interesse de mandato.

 

Parece-me trivial afirmar que a violência é um mal a ser extirpado. Afinal, querer eliminá-la é natural; fazê-lo de fato, não. E como se muda uma realidade que afeta negativamente e de forma grave a estrutura social e as pessoas em sua perspectiva última?

 

Medidas efetivas de organização e ação política transparente, integrada por um eixo comum, parecem necessárias. Contudo, os agentes dispostos no cenário político, cuja ação muitas vezes se perde em discursos de depreciação de adversários e em objetivos apologéticos reduzidos, acabam dissolvendo questões fundamentais. O debate perde profundidade e temas importantes ficam sem espaço. No fim, beneficia-se o saldo de interesses financeiros e de poder, fazendo prevalecer a lei do mais forte — ou talvez a lei do “mais ousado” que em verdade se traduz em real covardia.

 

Pois há diferença entre coragem e um certo tipo de ousadia que, em verdade, traduz-se em irresponsabilidade e pertence mais ao escopo da covardia. A coragem exige responsabilidade diante das consequências. Já a covardia, muitas vezes disfarçada de ousadia e sem compromisso com a verdade, com políticas públicas e com ações que se façam de fato factíveis, acaba por configurar projetos de poder muito mais do que reais projetos políticos de desenvolvimento.

 

Assim, os problemas escalam como uma dívida crescente que em algum momento se torna insustentável, apesar de qualquer adorno material de alto valor econômico. Nenhum carro de luxo, imóvel sofisticado ou símbolo de status consegue esconder indefinidamente a deterioração de um tecido social adoecido.

 

Infelizmente, vemos questões que exigem ação imediata para que se diga claramente: algo não está certo e não merece disfarces. Disfarces sempre convenientes para quem é covarde com a vida e transforma o bem-estar alheio em aposta. Assim surgem financiamentos escusos, ganhos indiretos e interesses travestidos de “investimento” sob a responsabilidade de representantes políticos, em várias ordens.

 

Diante disso, deparamo-nos com a falta de objetividade, de propósito público e de avanço social concreto. Falta transporte público de qualidade. Falta uma distribuição urbana mais inteligente. Falta integração entre mobilidade, moradia, segurança e dignidade básica. E, sobretudo, falta compreender que infraestrutura não é luxo: é condição mínima de cidadania.

 

Infelizmente, o que se vê é o criminoso estabelecer “parcerias” entre atores sociais, algo que muitas vezes se traduz numa espécie de irmandade de ideais e modos de viver. E isso confirma outra máxima importante: “bandido bom não é bandido morto”, mas, muitas vezes, “bandido bom é bandido rico”. É diante da pobreza e da precariedade — e a partir delas — que privilégios mais restritos se realizam e se sustentam para poucos, enquanto os problemas sociais — que atingem a todas e todos — não apenas permanecem sem solução, mas até se agravam.

 

Existe uma seletividade moral silenciosa nesse processo. Certos crimes parecem intoleráveis apenas quando vêm da pobreza visível. Outros, quando atravessados por poder, influência ou aparência de respeitabilidade, passam a receber justificativas, relativizações e até admiração indireta.

 

É preciso ter um senso maior de que o certo deve ser reconhecido como certo. Melhor ainda: apostar em fazer o que é correto. Afinal, todas as coisas possuem consequências. E as consequências de ações corretas derivam em benefícios sistêmicos que atingem um e outro, de mesma ou diferente forma, de modo efetivo.



Aparência, Autoengano e Responsabilidade Ética

 

Lembrei da história do rei nu. Num reino, um costureiro famoso dizia produzir uma vestimenta especial, visível apenas aos inteligentes. O rei, mesmo não vendo a roupa que lhe “fora feita”, afirmou que a via. Um dia, durante uma cerimônia, enquanto desfilava diante da multidão, uma criança gritou: “o rei está nu”. E assim, aquilo que era um movimento de autoengano tornou-se evidente. O rei havia pago uma fortuna ao costureiro, que ria do verdadeiro enganado: alguém vencido pelo próprio orgulho.

 

Talvez exista algo semelhante no presente. Muitas vezes já se percebe o vazio das estruturas, dos discursos e das falsas soluções, mas continua-se sustentando aparências para não romper com aquilo que produz sensação de pertencimento, vantagem ou estabilidade imediata.

 

Sendo assim, concluo dizendo que é importante perceber que tipo de laço social e compromisso estamos alimentando, pois disso deriva um estado de coisas. O engano é aceitável; o erro deliberado, não. Trata-se de observar as coisas como são, e não apenas como gostaríamos que fossem. Querer o melhor para si, para os seus e para os demais não tem nada de errado. A questão está na forma e naquilo que de fato se faz em prol do quê.

 

Será que a noção de certo e errado já não basta? Ou será que, em meio à força dos interesses, das conveniências e dos valores distorcidos, tornou-se mais confortável confundir aquilo que já se sabe?


Imagens: banco de imagens do Canva e utilização complementar de ferramentas de geração digital.



 
 
 

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