Racismo como Estagnação
- anozmundo
- 20 de fev.
- 4 min de leitura
Quando o Mundo Anda e Há Quem Fique Parado

[ por Adriano A. Barboza | 20/02/2026 ]
O comportamento racista não é uma falha isolada, mas um não avanço evolutivo. Trata-se de uma estagnação presa a uma perspectiva materialista e identificatória, que se apresenta como dinâmica, mas permanece imóvel diante do movimento da vida. A teoria da evolução, em Charles Darwin, ajuda a compreender esse impasse: não há hierarquia entre humanos, apenas adaptações. Fenótipos, como a cor da pele, resultam de condições ambientais, não de valor.
Essa identificação restrita a um único modo de se localizar no mundo tenta se sustentar como soberana, mas se revela estacionária. O mundo segue em curva ascendente de transformação, enquanto tal perspectiva permanece fixada. Essa lógica é bem sintetizada por Caetano Veloso ao nomear, em uma canção, o dano humano produzido por um paradigma histórico, social e político de longa duração, que se impõe pela força e se organiza sob o imperativo do “macho adulto branco sempre no comando.
Há aí um flagelo travestido de convicção natural e de objetivo hedonista, construído cultural e politicamente. Trata-se de uma projeção estagnada no mundo, traída pelo apego ao sensório mais imediato e pela superficialidade como forma de orientação moral. Avança-se sem homogeneidade, sem considerar os elementos que compõem a verdadeira grandeza do evoluir. Assim se constitui uma materialidade referencial do prazer que, em sua deficiência, afasta-se da prática da evolução e se obscurece, tornando-se elemento de prazo vencido em um mundo que, apesar de tudo, segue em movimento.
Mas afinal, do que se fala aqui?
Fala-se do comportamento racista enquanto viés. Não apenas como ato individual, mas como expressão de um pensamento compartilhado, primitivo e autodestrutivo, incapaz de acompanhar as remodelagens que a vida e o mundo exigem. Um viés que se assemelha à água parada: não porque somente falte densidade, mas porque falta circulação.
Nesse contexto, associar pessoas negras a macacos revela menos sobre o alvo do ataque e mais sobre quem o produz. Trata-se de uma projeção autoidentificatória, de um apego simbólico ao ponto em que o próprio agressor permanece fixado. Como na resposta infantil precisa: “mais feio é quem me diz”. Ninguém lança mão de um significante que não lhe diga respeito.
É como no caso de uma resposta infantil em que a criança reconhece a intenção contida no ataque e reage de forma simples e objetiva. A criança não apenas se defende; ela localiza a origem do ataque. O insulto retorna a quem o proferiu inicialmente, revelando sua implicação subjetiva, pois nenhum agressor lança mão de um significante sem comunicação consigo mesmo. Trata-se de um movimento autoidentificatório.
O racismo opera no mesmo eixo do bullying: um revide diante do incômodo que o outro provoca. Caetano Veloso descreveu isso ao relatar sua prisão arbitrária durante a ditadura, quando percebeu que o desumano não estava em quem era tratado como objeto, mas em quem tratava. O ataque surge como tentativa de compensação de um sentimento de inferioridade que se intensifica diante de alguém íntegro, capaz de existir sem pedir autorização.

Há aí o que se costuma chamar, de modo alegórico, de “inveja branca”. Trata-se menos de uma inveja consciente do que de uma dificuldade em sustentar a comparação, que tenta se apresentar de forma velada, mas acaba por se expor de maneira evidente. Quando essa dinâmica se manifesta como insulto, ela deixa de ser apenas um afeto difuso e passa a assumir contornos socialmente reconhecíveis, que não podem mais ser naturalizados. A insistência em categorizar seres humanos entre superiores e inferiores revela, assim, o ponto de estagnação simbólica de quem sustenta tal lógica, ainda que essa posição tenha sido historicamente amparada por estruturas de dominação.
O caso de Vinícius Júnior é emblemático. Um homem negro, talentoso e exitoso, que ousa existir em excelência. Sua presença em campo expõe a ferida narcísica de quem prefere um mundo parado. Não é o futebol que incomoda, mas o movimento. A vida segue como o jogo bem jogado, em que não se trata de vencer o outro, mas de sustentar o próprio avanço.
Nesse cenário, análises superficiais tentam justificar violências históricas afirmando inferioridades naturais, seja de povos escravizados, seja de povos originários. Ignora-se que muitas dessas formas de organização social eram mais avançadas em suas relações humanas, ainda não capturadas pela lógica do trono, da dominação e da opressão política. O que foi exterminado não foi fragilidade, mas uma outra possibilidade civilizatória.
A vida, porém, segue em movimento. Evoluir é entrar em campo. Não se trata de uma disputa simplista entre winner e loser, mas da dialética do jogo bem jogado, daquele que se desenvolve dentro das regras e com elas. Um movimento quase artístico entre intenção, ação e consequência. Como canta Paulinho da Violar: “Nessa vida de perde e ganha, perde quem não sabe ganhar e ganha quem sabe perder”.
Quanta ousadia há em você, Vini, por ser quem é. Por não precisar se impor de modo arbitrário nem negar a humanidade para existir. Sua força e humildade vêm de um povo violentado justamente por representar a ameaça da liberdade. Ainda assim, como um rio que não se detém, a vida segue seu curso.
Vencedores somos todos nós que escolhemos a boa luta. Aquela em que sabemos de que lado estamos, mesmo diante dos golpes. Todos fazem parte do processo evolutivo. Alguns ocupam posições que exigem mais, porque têm mais a oferecer. Seu caminho já é reconhecido no esporte, mas sua presença toca algo maior: a possibilidade de avanço coletivo.
Para fazer um gol, é preciso foco. Depois, é preciso seguir. Em sintonia consigo mesmo e com muitos outros. No bonito processo de construir jogadas que dizem, por si só, que viver pode — e deve — ser muito mais.
Fotos: Banco de imagens Canva.




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Reflexão pertinente em temas que exigem o envolvimento de todos/as nós