O Que Será, Hein?!
- anozmundo
- 25 de abr.
- 5 min de leitura
Acerca do Princípio e Para Além Dele

[ por Adriano A. Barboza | 25/04/26 ]
Será que sabemos responder àquilo que nos toca como humanos — ao que se faz sentir em níveis mais profundos e convoca um sentido para além do que podemos explicar?
Essa questão não é apenas retórica; ela diz respeito ao modo como nos situamos diante de experiências que nos atravessam e parecem não se deixar apreender por completo. São vivências que circulam, que se insinuam, que se fazem presentes sem se fixarem. Há, nesse movimento, algo que inquieta: um vazio que pode se apresentar como o não sentir — árido e inóspito — ou, talvez de forma ainda mais perturbadora, como o mal sentir, isto é, a experiência de ser afetado por algo que nos atravessa sem que possamos, de imediato, nomeá-lo ou compreendê-lo.
É nesse intervalo — entre a solidão do indivíduo e a constituição de um saber que só se realiza na coletividade — que se delineia o sujeito. Sem o outro, o sujeito tende ao esvaziamento de sua própria condição de existência psíquica e emocional. Com o outro, contudo, não se dissolve, mas se tensiona. É nesse laço que o sentir ganha consistência e o expressar encontra lugar. E é justamente aí que emerge a pergunta que sustenta este ensaio: o que será?
Trata-se, aqui, da apresentação de um vídeo que acompanha a canção O Que Será (À Flor da Terra), de Chico Buarque e Milton Nascimento. A proposta nasce como uma forma de expressão diante daquilo que nos toca no plano do sensível — algo que, embora singular, pode ressoar em qualquer um. Não se trata de ilustrar a música de maneira literal, mas, em alguma medida, de valorizar a canção e aquilo que ela pode suscitar enquanto experiência de sentido. A versão com a cantora cubana Omara Portuondo, ao lado de Chico Buarque, pareceu-me especialmente bela e pertinente, na medida em que evoca pontos que se articulam com questões sociopolíticas, culturais e, sobretudo, humanas, tensionando o individual e o coletivo.
Poder-se-ia dizer que o que está em jogo é a paixão; outros dirão que se trata do amor; há ainda quem não distinga entre ambos. Se é preciso responder, inclino-me a considerar o amor — não como oposição à paixão, mas como aquilo que a inclui em seus interstícios, compondo um campo afetivo mais amplo, intenso e, ao mesmo tempo, menos delimitável.
A força da canção não reside em oferecer respostas, mas em sustentar o impasse. Poder-se-ia afirmar que tudo se resolve em “ser o que é”; no entanto, a própria formulação nos devolve à questão: o que é esse “isso” que se afirma como sendo? Não sabemos. Sabemos apenas que ele se faz sentir. E, assim, a pergunta retorna, insistente, à sua forma mais simples e mais radical: o que será?
O vídeo, nesse sentido, não busca esclarecer, mas acompanhar esse movimento. Ele se constrói como uma tentativa de dar forma ao informe, de sugerir imagens que não fixam sentidos, mas os fazem circular. Trata-se menos de representar do que de evocar — menos de dizer do que de sustentar a experiência de não saber. Há, nesse gesto, um olhar que transita entre universos de vivências e sentidos coletivos — alguns ativos, outros encobertos pelo próprio curso da experiência, já supostamente compreendidos, apreendidos ou ainda indistinguíveis. É nesse campo do não mensurável que algo se apresenta: não como um simples “apenas”, mas como aquilo que é, ainda sem se deixar reduzir.
Movemo-nos, assim, em direção a ideais que nem sempre se realizam, mas que orientam nossas ações. Entre o ideal e o possível, entre o desejo e a norma, vislumbramos — ainda que de modo impreciso — algo como a busca pela própria liberdade.
Trata-se, porém, de uma dinâmica complexa: aquilo que, à primeira vista, poderia parecer simples, exige de cada um um investimento que ultrapassa o acaso. Se há um caminho que merece ser reconhecido como tal, ele demanda ao menos um esforço consistente para que se converta em sentido — em um sentir que não se reduz à dispersão ou à obtusão, mas que se reinscreve como questão aberta: o que será, então?
Essa problemática se desdobra inevitavelmente no campo social e político. Ao considerarmos contextos como o de Cuba, deparamo-nos com uma realidade atravessada por contradições internas e externas, nas quais se entrelaçam concepções sociopolíticas, culturais e ideológicas que incidem diretamente sobre a vida coletiva e, por extensão, sobre a experiência individual. Há, nesse cenário, avanços reconhecíveis em determinadas áreas que coexistem com restrições e dificuldades persistentes.
A história do país, marcada pela Revolução Cubana e por tensões geopolíticas prolongadas — incluindo pressões externas de grandes potências —, evidencia que nenhum modelo está isento de limites. Ao mesmo tempo, impede leituras simplificadoras: se, por um lado, há conquistas que não podem ser ignoradas, por outro, há impasses reais que tampouco devem ser minimizados.
Do mesmo modo, situações contemporâneas como as vividas na Faixa de Gaza tornam visível o quanto a noção de liberdade pode ser tensionada — e mesmo negada — quando atravessada por interesses, conflitos e forças que ultrapassam o indivíduo. Nesses contextos, a pergunta sobre o que é a liberdade deixa de ser abstrata e se torna concreta, urgente e, muitas vezes, dramática.
Diante disso, permanecem algumas questões incontornáveis: a liberdade e a justiça são, de fato, acessíveis a todos, ou dependem das estruturas que as sustentam? Até que ponto podem ser reconhecidas — ou mesmo abaladas — por um olhar mais atento?
Talvez o que se exija não seja uma resposta definitiva, mas a capacidade de sustentar a tensão entre três dimensões: aquilo que é, aquilo que se pensa que é e aquilo que se gostaria que fosse. É nesse entrelaçamento que a experiência humana se constitui — e é nele que a pergunta “o que será?” encontra sua permanência.
Não se trata, portanto, de reduzir a experiência a definições ou de encerrá-la em formulações repetitivas, mas de permitir que ela se revele em sua própria dinâmica. O que é não deixa de ser, mas pode tornar-se mais visível, mais sensível, mais compreensível ao longo do tempo.
O essencial, talvez, resida justamente nesse movimento: entre o que se mostra e o que se oculta, entre o que se sente e o que não se pode dizer plenamente. Não como um ideal a ser alcançado, mas como um percurso a ser sustentado.
E é nesse ponto que algo pode, de fato, ser encontrado — não como resultado de uma busca objetiva, mas como aquilo que se dá, inesperadamente, no próprio percurso. Como já indicava Jacques Lacan, não se trata propriamente de buscar, mas, de algum modo, de achar.
Segue o vídeo da canção:
Figura: Cena do filme Buena Vista Social Club de Wim Wenders editado pelo Canva.
Vídeo: Canção O QUE SERÁ de Chico Buarque de Hollanda e Milton Nascimento editado e produzido pelo A NOZ [mundo] 2026.




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