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O Cargo de Maior Influência no Mundo:

  • anozmundo
  • 29 de jan.
  • 4 min de leitura

Pais, Filhos e a Construção de Raios de Segurança



[por Adriano A. Barboza]

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Vivemos em uma época marcada por projeções constantes, ideais de sucesso e posições de aparente superioridade que prometem autonomia, prestígio e menor dependência do outro. Nesse cenário, costuma-se associar influência ao poder de mando, à capacidade de exigir sem conceder e à ocupação de lugares privilegiados nas hierarquias sociais. Contudo, talvez seja justamente esse olhar que precise ser suspenso para que possamos recolocar uma pergunta essencial: qual é, afinal, o cargo de maior influência sobre o mundo e sobre a vida em sociedade?

 

Quando deslocamos a análise para além das funções formais de poder e prestígio, torna-se possível reconhecer que a influência mais decisiva não se exerce nos grandes cargos públicos ou nas posições de destaque social, mas no espaço mais cotidiano e, ao mesmo tempo, mais estruturante da vida humana. Trata-se da função exercida por pais, mães e cuidadores no desenvolvimento de uma criança. Nenhuma outra função social, por mais relevante que pareça, deixa de passar, direta ou indiretamente, por esse ponto de origem. Todo sujeito que ocupa algum lugar no mundo foi, antes, filho ou filha de alguém, ou esteve sob os cuidados de algum adulto que exerceu, de modo mais ou menos consciente, essa função formadora.

 

Ser pai ou mãe não é, portanto, apenas uma condição biológica ou jurídica, mas um lugar de profunda responsabilidade subjetiva e social. É nesse espaço que se lançam as bases do senso crítico, da capacidade de discernimento, da elaboração emocional e da relação ética com o outro e com o mundo. Em tempos marcados por transformações rápidas, pela mediação constante das tecnologias digitais e pela ampliação dos espaços de interação virtual, essa função adquire contornos ainda mais delicados e urgentes.

 

As crianças e os adolescentes de hoje dispõem de ferramentas de interação que ampliam suas possibilidades de comunicação, mas também os expõem a riscos reais e severos. A relação entre indivíduo e máquina, quando não mediada por vínculos humanos sólidos e por um diálogo contínuo, pode colocar sujeitos em formação diante de situações para as quais ainda não possuem recursos psíquicos suficientes. Muitas vezes, essa interação se apresenta sob a forma de um aparente acolhimento e resposta, tornando-se familiar e correspondente.

 

Tal processo se aprofunda, sobretudo, quando há a ausência de uma relação viva com alguém que exerça autoridade por meio da orientação e do exemplo. Nesse contexto, a construção da subjetividade torna-se um ponto central de proteção. Não se trata apenas de controlar acessos ou impor proibições, mas de criar condições para que a criança desenvolva a capacidade de pensar, questionar, elaborar e se posicionar diante do que vê e vivencia.

 

Durante muito tempo, interpretou-se como excesso ou incômodo o fato de crianças fazerem perguntas demais. Questões consideradas embaraçosas eram frequentemente evitadas, adiadas ou silenciadas. No entanto, quando um filho ou filha pergunta, o primeiro gesto ético e educativo não é responder apressadamente, mas escutar. Escutar o que exatamente está sendo perguntado, o que a criança já sabe sobre o assunto e quais sentidos ela está tentando construir.

 

Esse cuidado evita tanto a omissão quanto a introdução de conteúdos para os quais ainda não está preparada. Ao mesmo tempo, fortalece o vínculo de confiança e estabelece um referencial de influência e estímulo ao senso crítico e à discussão. Desse modo, previnem-se respostas fáceis e perigosas. Uma criança ou jovem que cresce em um ambiente de diálogo e critério ético é capaz de discernir o que é bom ou ruim, tanto nas telas quanto fora delas, podendo inclusive denunciar situações de risco por possuir valores morais e éticos consolidados na vida cotidiana.

  

Quando esse espaço de diálogo não se sustenta no ambiente familiar, a busca por respostas tende a migrar para a internet, onde a criança fica exposta a conteúdos descontextualizados, violentos ou manipuladores. Mais grave ainda, perde-se a oportunidade de favorecer a elaboração subjetiva, substituindo o pensar pelo consumo passivo de informações. Isso compromete a capacidade de autodeterminação e fragiliza o desenvolvimento de uma responsabilidade interna em relação ao que se pensa, sente e faz.

 

A construção desse percurso — feito de diálogo, escuta, limites claros e afeto — funciona como um verdadeiro raio de segurança. Ela cria anticorpos simbólicos e emocionais que protegem contra armadilhas, manipulações e formas de abuso, inclusive aquelas que se dão de maneira silenciosa e progressiva no ambiente digital. Ao mesmo tempo, esse processo exige que os próprios pais amadureçam continuamente, reconhecendo que exercer autoridade não é sinônimo de autoritarismo, mas de presença responsável, implicada e cuidadora.

 

Vivemos um tempo em que muitos problemas parecem insolúveis quando, na verdade, são complexos e exigem análise cuidadosa, e não respostas simplistas. O abuso infantil e o cyberabuso se inserem nesse campo. Crianças e adolescentes têm sido expostos a formas extremas de violência simbólica e psicológica, incluindo coerções, humilhações e práticas de autoagressão induzidas em ambientes virtuais. Não se trata aqui de explorar as atrocidades em si, mas de compreender as condições sociais e subjetivas que tornam tais violências possíveis.

 

Nesse sentido, torna-se fundamental considerar os diferentes estágios de desenvolvimento biológico e psicoemocional envolvidos, tanto das crianças quanto dos adultos que as acompanham. Pais e mães de hoje enfrentam desafios inéditos e, muitas vezes, sentem-se desorientados diante de situações que não fizeram parte de sua própria formação. Ainda assim, é justamente nesse ponto que reside a importância de retomar o valor do vínculo, da escuta e da construção conjunta de sentido.

 

O vídeo que se segue insere-se nesse horizonte. Ele não oferece fórmulas prontas, mas convida à reflexão sobre relações, cuidados e prioridades humanas. Mais do que alertar para os perigos, propõe fortalecer aquilo que, desde sempre, se mostrou o mais potente instrumento de proteção: uma relação viva, crítica e afetiva entre pais e filhos, capaz de sustentar a formação de sujeitos mais seguros, conscientes e preparados para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo.






Foto: Canva

Vídeo: "Pais e Filhos e as Ilusões do Mundo Digital" | A Noz [mundo] Canal do YouTube

 
 
 

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