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- 28 de fev.
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Atualizado: 1 de mar.
A Cultura que Normaliza a Violência na Célula Familiar

[ por Adriano A. Barboza | 28/02/26 ]
Infelizmente, temos nos deparado com a ascensão de notícias que nos atualizam acerca de fatos do cotidiano contemporâneo e, sobretudo, do sofrimento que o atravessa. Ainda que desconfortáveis, tais notícias não poderiam ser diferentes, na medida em que esses fatos e questões já não podem permanecer soterrados pela força daqueles que permitem que sejam ignorados. Ainda que ignorar possa ser compreendido como não saber, é possível supor que ignorar também seja um posicionamento. Um ponto no qual a cultura favorece um modo de viver que, mesmo não percebido de imediato, revelam-se, em diferentes graus e sentidos, autodestrutivo.
É a partir daí que se impõe a pergunta: o que dizer disso? Trata-se da força e da opressão tomadas como peso e valor, instrumentalizadas para sustentar uma ideia de resistência que visa mantê-las permanentes. Isso implica dar manutenção, ou mesmo enrijecer-se, de modo a inviabilizar a caminhada necessária da evolução natural que o mundo impõe e solicita sem cessar. A Terra gira, apesar de alguém, ou alguns, desejarem viver como se fosse possível manobrar o tempo e subtraí-lo ao tentar congelá-lo. Tal gesto é da ordem da cristalização. Pode parecer conservação, mas nada disso se faz sem consequências. A água parada, estagnada, não preserva; nutre apenas o que se decompõe, ainda que se negue o que isso produz, a contragosto da percepção e do chamado histórico por renovação.
No horizonte humanitário e dos direitos à vida, emerge uma questão que beira o absurdo quando observada pela lente de destaque conferida no espaço noticioso. O assédio, o abuso e o feminicídio são fruto de um destino recalcitrado que toma a mulher como satisfação de uma vontade de gozo paralisada no tempo. Essa vontade, ajustada a si mesma, entra em rota de colisão com aquilo que avança. O conflito se estabelece no plano da vida como desejo e na linha histórica dos modos de vida e dos acontecimentos, que não demonstram outra coisa senão o que chamamos de evolução. Chama a atenção o modo como se evidencia algo triste e gravoso, consequência direta de uma perspectiva cultural antiga, ainda conservada de forma cristalizada. Muitas vezes, não nos damos conta de que a visibilidade conferida pelos noticiários expõe aquilo que já não pode estagnar.

Trata-se de uma questão que não está mais à deriva. Ela exige ser analisada e avaliada não apenas como um estar circunstancial, mas como um ser decisivo, um eixo indispensável para qualquer apreço real pela evolução e pelo progresso. Isso ocorre apesar do desejo persistente de frear, conservar e manter amorfo aquilo que se tenta esconder sem depuração. Por isso, permanece oculto e cego, mesmo em tempos de câmeras em tempo real e de ampla rede de monitoramento, que cada vez mais produzem evidências claras e conferem materialidade aos fatos, permitindo o exame da instância causal.
Uma Violência Sem Atenuantes: O Ocaso da Compreensão
Na esteira de uma análise que não se satisfaça com a simples administração das consequências, impõe-se a necessidade de adentrar, de forma efetiva, no questionamento causal. A notícia e os noticiários apresentam apenas recortes do que atravessa a vida social como consequência de uma ordem que destoa do que se poderia chamar de perspectiva cultural madura. O jornalismo ativo, no tempo vivo, muitas vezes opera no campo do contrassenso e não poderá ir além daquilo que é possível se fazer dentro das questões que prescindem de análises mais específicas, sob uma perspectiva interdisciplinar. Isso nos remete a um erro crasso de análise que também atravessa a opinião pública, com ou sem mediação jornalística, especialmente nas redes sociais, onde as especulações se organizam sob um aparente novo senso que apenas se qualifica assim por transitar em novo modo de dinâmica de comunicação. Tal movimento pode conduzir à transformação, mas não deveria prescindir de uma análise causal consistente.
Ao analisar o caso do envolvimento marital entre um adulto de 35 anos e uma criança de 12, que ganhou repercussão após a absolvição inicial de abuso por um desembargador posteriormente denunciado como abusador, torna-se evidente um conflito com qualquer compreensão minimamente coerente de ordem social e cultural. Ainda assim, é necessário considerar pontos centrais da questão. Defende-se como normal aquilo que já se configura, em si, como uma forma de abuso legitimada socialmente. Trata-se de uma sociedade que evita colocar em foco uma análise crítica das causas que sustenta. Vive-se, assim, de modo elucubrado, isto é, enredado em construções abstratas que racionalizam o intolerável, e, ao mesmo tempo, obnubilado, com a percepção turvada diante daquilo que insiste em emergir como verdade incômoda, mas incontornável.
Retorno à leitura do trabalho realizado nas oficinas de notícias e da realidade social em constante tensionamento. Observa-se que muitos jornalistas se situam a partir do que foi postulado nos estudos epistemológicos da educação. Pessoas dotadas de determinado capital cultural inferem sobre uma realidade que não corresponde à experiência vivida pela população que se torna alvo da análise acerca de fatos noticiados. Produzem-se, assim, realidades em conflito. Que esse conflito seja produtivo e não mero confronto, capaz apenas de barrar um avanço necessário à análise. Ainda que os analistas jornalísticos exerçam papel fundamental como olhos sociais, suas leituras não podem se afastar das condições reais de vida daqueles que aparecem como objeto da notícia.
Ao considerar a violência contra crianças e mulheres, marcada por uma cultura de obscuridade antes estrutural e hoje mais visível, abre-se um cenário favorável ao debate crítico. No caso da menina de 12 anos, causam perplexidade os argumentos utilizados em defesa do adulto de 35 anos, portador de longa ficha de delitos. Destaca-se a alegação de experiências sexuais prévias da criança como tentativa de retirar-lhe a condição de inocência ou involuntariedade. Tal argumento, longe de atenuar, agrava a responsabilidade dos responsáveis legais, que devem responder pelas circunstâncias em que tais fatos ocorreram. A tutela implica responsabilidade integral sobre a integridade da criança.
Mesmo diante de erros processuais, a absolvição inicial foi anulada, com o encaminhamento da prisão do abusador e da mãe que anuiu com o “casamento”. Chama atenção, contudo, o uso de distinções jurídicas para sustentar uma lógica do “menos pior” em favor da menina, sem que tal ponderação tenha sido considerada no caso da mãe, o que exige uma análise do conjunto circunstancial dessa família dentro de um contexto que demanda distinções mais rigorosas em termos lógicos e semânticos. Não se avaliaram adequadamente os fatores que poderiam atuar como atenuantes. A mãe afirmou desconhecer que fosse crime uma menina de 12 anos casar-se com um homem de 35, argumento que ganha consistência quando se observa que ela própria se casou aos 11 anos. Sua prisão configura, assim, uma dupla punição, com marcas psicológicas profundas, pois ela é penalizada por um crime naturalizado culturalmente, que já a havia aprisionado em uma condição anterior de violação de integridade e liberdade.
A Violência Nossa de Todo Dia: Até Quando?
Enquanto se fala em defesa da família, cruzam-se os braços diante da pedofilia veiculada pela internet, em um cenário marcado pela ausência de regulação das redes sociais. Longe de prestarem um serviço responsável e sério, essas plataformas acabam por contar com a anuência do descaso. Não haveria aí uma similaridade com a postura de uma mãe que consente que a filha se case aos doze anos? Os políticos que se apresentam como defensores do conservadorismo e da família não estariam, na prática, anuindo para que, em termos culturais e concretos, se estimule o abuso de menores?

Soma-se a isso o apoio às bets, que impediu a aprovação de um Projeto de Emenda Constitucional destinado a permitir que o aumento de impostos sobre a exploração de apostas financiasse a segurança pública. Pode-se, então, levar a sério o discurso de quem se autodenomina defensor dos valores da família? Nada disso se articula a uma mesma cultura de abusos, corrupção e violência?
Essa cultura de violência, corroborada pela omissão e pela insuficiente competência para enfrentar as diversas dimensões do problema, está longe de estar minimamente equacionada. Ao contrário, ela se alimenta de sucessivos escândalos de corrupção, que se tornam parte constitutiva da própria engrenagem da violência.
Em termos de análise e discussão sobre a gestão dos territórios onde as coisas ocorrem, uma atuação que se pretenda forte e séria deveria enfrentar esse cenário sem recorrer, de modo não transparente, à aniquilação de pessoas no próprio processo de atuação policial. Ainda assim, persiste a resistência às câmeras corporais.
Muito poderia ser dito sobre a dimensão ativa da segurança pública. No entanto, parece oportuno, neste momento, refletir sobre a redução da maioridade penal, tema que caminha em paralelo à violação de crianças e adolescentes. Aos 12 anos, uma menina se casa; aos 14, um menino é preso.
O que acontece antes dessas idades em termos de orientação cultural e de discussão efetiva, capaz de produzir resultados concretos em políticas públicas? A que tipo de punição e tratamento social seria submetido um adolescente de 14 anos no Brasil para que não se torne alistado nas facções que exercem mando e produzem leis próprias dentro dos presídios? Essas questões precisam ser colocadas antes que a resposta se reduza à simples construção de mais presídios.
Parte significativa de parlamentares parece mais preocupada em garantir a liberação da primeira pistola e de armamentos ainda mais pesados, sob o pretexto de colecionismo. Armas que, invariavelmente, acabam por alimentar o crime. Nada justifica que uma pessoa, neste país, porte um fuzil. Não se combate o crime apenas encarcerando criminosos — quando não os matando —, sobretudo quando o fuzil retirado de um corpo retorna às mãos de outro soldado do crime.
O que se faz necessário é retirar esses armamentos de circulação. Fuzis custam caro e sua apreensão efetiva desidrata o poder bélico de milícias e demais organizações criminosas.
A luta se dá em duas frentes: estruturar a integridade sociocultural da população e combater os objetos e dispositivos que sustentam o crime. Eis o campo da prevenção que precisa ser colocado em pauta. É preciso menos enaltecimento das funções de autoridade, em suas várias escalas, e mais compromisso em conferir à sociedade condições de vida digna, sem submissão à opressão que mata ao ser naturalizada pelo autoengano.
Esse autoengano se alimenta do distanciamento da discussão real, enquanto políticos pleiteiam cargos e aval para fazer circular volumosas verbas públicas sem registro, uso claro ou fiscalização adequada. Não se pode aceitar que a mentira se consolide como nova verdade conveniente, legitimada por uma espécie de distinguishing cultural, social e político.
A justiça pode ser cega, mas não pode se fazer surda. É necessário ampliar a capacidade de escuta e enfrentar a crise cultural que atravessa o próprio campo jurídico. A sentença, ao ser proferida, deve permanecer sob escrutínio público, pois integra a vida social e expressa uma moralidade passível de transformação. Esse aprimoramento pode e deve contar com a opinião pública e com a imprensa, cuja visibilidade exerce papel crucial diante de processos de obtusão e cristalização conservadora que precisam ser questionados. Trata-se de um movimento que busca não apenas ultrapassar o autoengano, mas também evidenciar erros passíveis de punição e reparação, de modo progressivamente mais justo, dentro do que se faz possível.
Imagens: Banco de imagens Canva.




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