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Mapas do Esperado Inesperado: Entre Relações Humanas e Ambiente em Crise

  • anozmundo
  • 29 de jan.
  • 7 min de leitura

por Adriano A. Barboza --- [15/11/25] |


Primeiramente, é importante que se diga que, diante do tema e da dinâmica que envolvem questões ambientais e climáticas presentes nas discussões, pode-se considerar igualmente necessário compor alguns olhares analíticos, sociopolíticos e comportamentais que perpassam a relação humana do indivíduo com o outro, com o meio ambiente e, sobretudo, consigo mesmo.


Tais olhares podem auxiliar e complementar quaisquer outras análises em torno da planificação de soluções práticas que, neste momento, se anunciam na COP30 e suscitam um fazer solidário e responsável em torno de uma necessidade de concertação que, em situação de grande número de interlocutores, torna-se sempre mais difícil ou trabalhosa, embora acabe por alcançar alguma convergência para determinados pontos de partida.


Para tanto, convoca-se um olhar ora específico, ora amplo, para que se faça jus a um movimento efetivamente produtivo, ao qual se busca dar objetividade sem perder a noção de equilíbrio de algo que é, sobretudo, de ordem sistêmica e que, por isso, pode ser tido como menos consistente justamente por ser complexo.


Desse modo, deve-se considerar que nada é fácil, nem tão simples quanto aparenta ser depois de pronto, feito e acontecido, quando, a seu turno, já ganhou materialidade e permite tomar ações e medidas que façam sentido diante da realidade. Negar a realidade — e um ou mais problemas — não faz com que eles desapareçam; ao contrário, torna tudo mais instável e inconsistente diante de qualquer passo que se queira dar.


Somente ao reconhecer o horizonte possível — e tê-lo como passível de coerência e lógica — é que se podem fazer as pazes com o caminho construído até então, caso fique marcado de modo mais enfático nele a percepção de erros. Sendo assim, será nessa condição de conjugação entre acolhimento e elaboração do que se coloca como perspectiva defectível de movimento errático que se pode, em igual medida, apresentar as possibilidades do que se configura como novos movimentos e, em passo efetivo, um acerto.


Tanto no modo como nos efeitos das escolhas — e no próprio modo de escolher — caminha-se para encontrar o sentido. Esse sentido, antes de tudo, encontra o destino que lhe é dado pelo caminhante que se perde quando não observa ao redor aquilo que possui em coesão vínculo com sua crise ou busca de compreensão.


A tudo isso pode-se somar a perspectiva de traçar planos que passam, primeiramente, pelo reconhecimento de terreno, que, além de se situar em território, é antes de tudo parte de uma terra que não possui sismologia delineada apenas por linhas geofísicas e políticas.


Tem como perspectiva outro olhar: aquele que entende a situação a partir de um conjunto de elementos integrados de natureza, como ocorre no caso dos biomas. Assim, ascende-se o olhar crítico para o que de fato afeta, de modo nocivo, aquilo que deve ser intensamente trabalhado a partir de suas peculiaridades, primordiais sob a perspectiva do fazer existir, viver e sobreviver por meio dos modos de tratamento do ser humano com o espaço natural — sujeito à degradação ou à recuperação consciente e necessária.


Dentro disso, reconhece-se o princípio da relação comutativa que envolve a natureza humana, e é nesse sentido que se pode analisar aquilo que é da ordem sintomática ambiental, antes mesmo de ser social na vida política humana.


Ao se colocar uma situação de crise que acaba sendo perceptível de modo externo e material, percebe-se que ela provém, antes de tudo, da ordem do subjetivo. É nessa perspectiva de ensaio que se apresenta aqui uma leitura do comportamento sociopolítico e cultural, anterior a qualquer discussão prática, pragmática e, sobretudo, técnica, sobre as dinâmicas que envolvem o natural ambiental.


A crise é também um chamamento, situado com obtusão, cujo pragmatismo evita aprofundar noções e, assim, torna-se portador de adoecimento no âmbito estrutural de corpo e mente. Esse adoecimento move um conjunto de elementos que, mesmo sem clara noção de efeito, acabam se deparando com a realidade, que se mostra implacável em seu modo crítico do fazer humano — primeiramente consigo — em interação social, a partir de uma lógica que condiz com o positivismo neoliberal que se insinua impositivo e opositor a tudo o que se coloca como crítico e alternativo no lidar com a terra/Terra e com a vida de forma mais completa.


Busca-se, portanto, para além de uma análise mais técnica dos dados que hoje se mostram alarmantes, a importância de combater um incêndio ruidoso que opera de modo sistêmico. Alguns atores, sem serem alarmistas em excesso, começam a compor modos efetivamente propositivos de realizar a transição energética, que é base para muitos dos males que precisam de tratamento diante daquilo que já não é incerteza, mas certeza líquida de deterioração.


Aquilo que, há muito tempo, se detectou e acendeu discussão como efeito estufa nos anos 1990 — somado às afecções na camada de ozônio pelo CFC contido em latas de spray — tornou-se motivo de destaque e ação. A partir dali, iniciou-se uma cruzada contra os buracos na camada de ozônio.


Porém, para além disso, temos em curso muitas questões básicas que deveriam compor discussão maior e mais abrangente: o lixo e a poluição dos automóveis.


É fato que as indústrias e os formatos de produção de energia em larga escala são os maiores responsáveis, ou ao menos guardam peso substancial, pelos danos causados. Ainda assim, será na inclusão do indivíduo — que é célula e sentido da ação, expansão e dimensão da vida — que se pode entender que o ser humano, como objeto causador de seus próprios efeitos na lida com a vida, representa exatamente como tudo mais pode ser tratado.


A partir de como ele se trata e trata os outros, que representam a mesma célula de vida em ação, reverbera-se um movimento que se desdobra do âmbito unicelular ao multicelular, formando um corpo maior envolvido pela vida e seus elementos de viés sistêmico.


Sem querer tornar a análise excessivamente personalizada, embora a neutralidade plena seja impossível, recordo-me de ter escrito um texto para a disciplina de Geografia no Ensino Médio — à época denominado “segundo grau” — no qual uma breve pesquisa tratava do efeito estufa e dos prejuízos do Clorofluorcarbono (CFC).


Nele havia o depoimento de um indígena que dizia que o homem branco depositava lixo sobre lixo e, em algum momento, acabaria se sufocando. Sua metáfora estabelecia a ligação lógica e correspondente do que viria a ser o aprofundamento do efeito estufa e do aquecimento global.


Segundo matéria do jornalista Bruno Calixto, publicada na Revista Época em 28/06/2017, sobre o lixo que passou a atingir regiões internas e distantes da Amazônia: “Na sociedade tradicional indígena, não existia lixo. O que as pessoas tiravam da floresta voltava para a floresta. Essa dinâmica mudou com o contato com o Estado brasileiro e com a chegada de turistas.” O lixo passou, então, a ser levado por agentes de programas diversos.


Penso que muitas das questões a serem tratadas nos diversos âmbitos da vida humana e natural estão inseridas na perspectiva de conter, no próprio problema — ou na própria pergunta — a resposta e, a seu turno, a solução.


Observar que um organismo doente pode ser analisado microscopicamente, pelo elemento celular que apresenta desarmonia e anomalia, é o que permite desenvolver tratamento curativo capaz de produzir, por si, uma resposta que se desdobrará, de modo macro, em solução.


O mesmo ocorre com problemas causados pelos modos intencionados e empreendidos de progresso da civilização, que passam antes por um âmbito mais nuclear do que vem a ser a vida em sociedade e, nela, o indivíduo que a compõe.


"Assim tem caminhado a humanidade, criando passivos que, em algum momento, devem encontrar saídas que tragam alívio por não mais postergar o que, antes de tudo, precisa ser reconhecido e elaborado na medida do possível."


Em termos socioantropológicos, é possível afirmar que sujeito e cultura nascem juntos. O indivíduo é inundado pela cultura que o antecede, podendo, a seu turno, alterá-la de modo positivo, desenvolvendo-a ao longo do tempo — cedo ou tarde — em resposta aos efeitos que ela mesma engendra e, em casos menos elaborados, manifesta como sintoma.


Vivemos, portanto, o sintoma e, com ele, a angústia que, na psicanálise, é o sentimento que possui o predicado de dizer a verdade. Se algo angustia o sujeito, cedo ou tarde ele deve ouvir esse chamado.


A angústia é, em seu turno, o próprio sujeito dizendo que algo nele não está certo e precisa ser resolvido. Do contrário, teremos, em termos psicanalíticos, o movimento de encobrimento, que retira do plano consciente aquilo com que o sujeito não consegue — ou não quer — lidar.


Assim caminha a humanidade, criando passivos que, em algum momento, devem encontrar saídas que tragam alívio por não mais postergar o que, antes de tudo, precisa ser reconhecido e elaborado na medida do possível. E, de modo propositivo, precisa ser colocado como questão paulatinamente, para não gerar consequências que exijam a cobrança de juros altos.


Nesse caso, para além do encadeamento de agentes que agem ativamente pela mitigação e prevenção de danos ambientais e climáticos, é preciso considerar os indivíduos que vivem nas cidades, com suas dinâmicas e problemas de urbanidade, organização, planejamento e políticas públicas — peças estruturadoras de movimentos que se desencadeiam de forma direta e indireta na vida comum.


São as pessoas que devem encontrar acesso para visualizar e compreender de que modo os problemas se dão e como as possíveis soluções podem ser orientadas para maior efetividade. A generalização é sempre um erro primário em análise, mas deve ser diferenciada do que é básico: inserir o cidadão comum na agenda para gerar desenvolvimento verde, capaz de repercutir benefícios para si e para o ambiente que o envolve — e que envolve a todos.


Assim como se cuida de um corpo cujas patologias exigem tratamento em nível micro, deve-se criar, de modo representativo, o que é abstrato por ser da ordem da intenção em movimento agregador prático.


Sem um mapa de rotas possíveis e necessárias, que envolva a humanidade a partir do básico — como o descarte de resíduos e seu destino devidamente cuidado, em vez de soluções ultrapassadas de alto custo econômico, como lixões e aterros sanitários — será difícil alcançar o entendimento e a naturalização de condutas responsáveis, produtoras de benesses coletivas dimensionadas para o corpo inteiro do planeta.



Figura: A partir de elementos gráficos do Canva

Fotografia: Acervo de imagens do Canva


 
 
 

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