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Libelo ao Samba

  • anozmundo
  • 18 de fev.
  • 7 min de leitura

O Samba Nunca Fora de Hora e sua Felicidade sem Fim



[ por Adriano A. Barboza | 17/02/2026 ]


O que, de fato, se parece com o samba?

E o que é, afinal, a sua fonte?

 

Muita coisa se apresenta como ponto de partida sem jamais ter visto o ponto original. Aquele que veio antes e intriga o final — a morte misteriosa e seu ponto ofegante de partida —, mas cujo essencial está no que inicia tudo como realidade. É esse ponto que faz algo deixar de ser inédito e passar a ser convencional, ao menos de modo superficial, e de modo fácil ainda que enganoso.

 

Aquilo que se faz opressor na forma acaba deformado na essência. Trata-se de um movimento que se opõe ao natural. O valor humano, muitas vezes, situa-se paradoxalmente aí: como aquilo que abre passagem à libertação de quem vive com alma individual e coletiva quando se sente integral.

 

É contra o engano da morte fria e desumana, em meio ao calor tropical que varia de sul a norte, após o semear derivativo de um ano de luta, que se canta. Canta-se em prelúdio do dia seguinte. Canta-se com atos. Com gestos. Com aquilo que se faz caminho.

 

Canta-se como canta Chico Buarque: não como ornamento, mas como travessia.

 

Trata-se de um modo de olhar para aquilo que é fato e, ainda assim, inaudito. Algo eloquente, carregado de premissas. Vento que sopra em contexto sul-americano, profundamente fraternal e acolhedor, mas brasileiro em sua totalidade.

 

Isso que hoje se apresenta, mais do que nunca, como parte do que se sente e, antes, se intui: a vida em busca de conciliação com o fluir natural, ao qual o ser humano vai ao encontro de si e do mundo. Amiga e nervosa. Sem negar a amizade como modo de igualar povos.

 

O óbvio ainda precisa ser dito. E será preciso dizê-lo com clareza, deixando de lado a negação ancestral que persiste mesmo quando se sabe universal.

 

O plural está aqui, na avenida. Está em todos os cantos onde se pula o carnaval e a festa pulula, felizmente. Está em cada forma de esperança que não pode ser passiva, mas que pode e deve ser ascendente e candente, como a dança em liberdade.

 

Não se trata de um começo desprovido de vontade de recomeço. Trata-se de reconhecer, mesmo sem adereço, a natureza feliz de ser o que se é. E de querer ser, ainda sem saber o que virá, mas sabendo, no fundo, que algo virá — mesmo envolto no mistério expresso na ordem sutil, porém inevitável, das coisas.

 

O encanto do engano também se revela quando deixa de ser. Ser e não ser seguem em questão.

 

Não precisamos levar vantagem. A desvantagem de alguém pode tornar-se busca, mas a recuperação, quando se transforma em aquisição, perde consistência. Rompe o elo entre desejo e sentido. A alma grita por libertação, não por mais peso de autodestruição.

 

Sem negar o real, encontra-se o ponto capital: a lira da partida, que sempre, em alguma medida, se despede da ilusão. Nesse caso, a percepção é gradual. Expressa-se em camadas. Simples assim.

 

Canta-se, então, para ouvir mais claro aquilo que se reconhece como beleza. Para que não se perca nos dias crus e obscuros, que um dia cessam com o clarear. O mar escuta. O mar fala. A divisão é pequena diante da vida plural, que se faz boa no todo e cobre os andares de quem caminha em busca da harmonia.

 

O passo vem solto. Claro. Discernindo a vida e uma finitude intrigante que, justamente por isso, é solvente. É movimento de avenida por onde passa um samba popular e sem igual. O que antes era apenas desenho torna-se visível. Um traço que permanece obscuro apenas para quem não olha a forma ou não busca compreender o sem igual.

 

Nessa batida, não se deixa passar.

Não se nega.

Não se recusa aquilo que é mais que cotidiano.

É batida de construção.

 

Tudo isso passa pelo samba dos mestres — e eles são muitos. Como diz uma canção de Bebeto Alves, no sul extremo do Brasil, em tom de ancoragem navegante e alegre: somos um bando. Um bando e muitos outros. Revoada de pombos e de aves.

 

Deixamos de ser o pavão misterioso da canção eloquente de Ney Matogrosso para assumir o mistério bom, o assombro luminoso do trópico. Ardor que se transforma em harmonia, como o isoneiro esperado do nosso canto, capaz de corrigir movimentos na direção errada sem negar o humano, ao mesmo tempo doce e bárbaro.

 

Abandonamos os precipícios do vivido e do vício. Seguimos para aquilo que sempre esteve presente na atitude da vida. A vida no meio do caminho, e nós no meio do caminho da vida. Mais que um destino encetado, aquilo que há de melhor na trajetória.

 

A alegria.

O traçado.

O repouso que deixa de ser corado para ser cunhado de modo suave. Indelével.

 

Algo que se registra pelos olhos e fica nu, guardado, alheio a qualquer convenção de ilusão. É nova nota de um samba. Nota notada. Barulho feito de silêncio eloquente.

 

O silêncio que faz vizinho e síndico reclamarem, sem perceber que, em todos nós, há um guri. Meu Guri. O de Cinema Paradiso. O de Orfeu Negro. Um guri que nos devolve às origens. E não há terra no mundo que não possa ser origem.





De uma origem errática e brasileira nasce a vertigem. Ela vibra no som elucubrado de Construção. A alegria atravessa o mar e ancora na passarela, no maior show da terra — sem dúvida —, vibrando e dançando entre tempestades e calor humano.

 

Somos súditos anônimos e, na verdade, protagonistas desimportantes no dia a dia. Justamente porque se quer impor uma apresentação ostensiva nos papéis sociais, que nada mais é do que a própria desimportância da vida. Navegar é preciso. Viver não é preciso.

 

Guardamos dores antigas, mas abrimos espaço para o novo. Cai o homem velho. Permanece o que insiste em viver.

 

Isso é paz.

 

Reis Momo para além do altar do coroamento. Guardiões do incandescente da vitória na avenida. O grito da alegria. Aquilo que surgirá nos novos dias.

 

Tudo é, de fato, infinito. Do ponto de partida ao coração. Da batida que faz perceber, nos dias seguintes, que a vida nasce da massa, da alegria e da tristeza. Não somos um só. Somos declaração de uma ponta a outra.

 

Canta-se uma questão: a afirmação. Hoje é o dia da alegria. A tristeza não pode pensar em roubar. A fé sustenta. A batalha existe. A coragem chega antes da noite.

 

O dia não apenas raiará. Ele clareará. Mostrará que a vida impera. Advinda do sonho, mas também do fato. Do remelexo. Da vontade contida de cantar. Do perdão ao que se ouviu e não se viu.

 

Mesmo em cantos ocultos, mesmo em vales distantes, circulamos com outros povos. Reconhecemos o que conecta: as matrizes africanas e suas vibrações. A linfa é dália da vida. Da cabrocha ao cancioneiro popular. Arte nascida da dor, mas também do saber ser.

 

O que é, é.

 

Não deixa de ser porque algo destoa. A natureza busca o resto do que não foi. Vira estrela. Brilha a cada ano. Ave navegadora que abandona antigos altares. A nova morada é a vida.

 

É namoro de Salvador ao Rio. O Rio que nunca foi só rio, pois busca o mar. Baías que se cruzam. O afoxé canta. Oxalá inaugura a festa sob os braços do Cristo que abençoa.

 

Samba no pé. Piscadela diante do horror. Amor doado apesar da ira. A raiva não combina com o sambar, embora habite um lar. Ainda assim, há nobreza, revelada no suor, no sal ao sol, no corpo que pede passagem para existir.

 

O mar cobre as redondezas. São Sebastião reaparece. Não como mito, mas como apreensão do coração. Fé que sustenta. Força para ficar em pé. Dançar na avenida. No país inteiro.

 

Há mais samba onde a vida corre. Nos dias que seguem. O que era aflição vira canto. O que era tralha se dissipa. A dor vira cor. Vira canção.

 

Não há manhã que crucifique o amor. Há manhã bonita. Violão. Atabaque. Vida sonora. Cantiga e mar misturam-se ao encanto de Deus.

 

Cristo sem madeiro. Livre. Claro. Límpido. Traje verdadeiro de liberdade. Abraça o vale. Abraça, por si, a própria nação.

 

Da vila ao morro, ecoa a cantiga contínua. Não para adormecer, mas para acordar. Da quarta-feira em diante, o dia seguinte entra em movimento.

 

Não haverá um pouco mais.

Haverá bem mais.

Mais samba.

 

Num novo dia.

Sem receio de sonhar.

No ritmo da respiração do universo.

Do planeta que gira.

Do mar que nunca para.



TEM MAIS SAMBA

 [Chico Buarque de Hollanda]

 

 

Tem mais samba no encontro

Que na espera

Tem mais samba a maldade

Que a ferida

  

Tem mais samba no porto

Que na vela

Tem mais samba o perdão

Que a despedida

  

Tem mais samba nas mãos

Do que nos olhos

Tem mais samba no chão

Do que na lua

  

Tem mais samba no homem

Que trabalha

Tem mais samba no som

Que vem da rua

  

Tem mais samba no peito

De quem chora

Tem mais samba no pranto

De quem vê

  

Que o bom samba

Não tem lugar, nem hora

O coração de fora

Samba sem querer

  

Vem que passa

Teu sofrer

Se todo mundo sambasse

Seria tão fácil viver

  

Vem que passa

Teu sofrer

Se todo mundo sambasse

Seria tão fácil viver

  

Vem que passa

Teu sofrer

Se todo mundo sambasse

Seria tão fácil viver

  

Vem que passa

Teu sofrer

Se todo mundo sambasse

Seria tão fácil viver

  

Vem que passa

Teu sofrer

 


Vídeo clipe da música Tem Mais Samba de Chico Buarque de Hollanda por ele mesmo:




Imagens: fotografias do Banco Canva

Vídeo: Clipe da canção Tem Mais Samba de Chico Buarque de Hollanda interpretado por ele mesmo. Vídeo produzido pelo A NOZ [mundo] postado no Canal do site no YouTube.

 
 
 

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