top of page
Buscar

Erótico em Errático

  • anozmundo
  • 7 de mar.
  • 8 min de leitura



[ por Adriano A. Barboza | 07/03/2026 ]


A Cultura do Gozo Sem Limites e a Normalização da Violência

 

Não adianta ignorar: a questão que envolve crimes de agressão e violência contra a mulher tornou-se urgente. Vivemos um estado de coisas que violenta brutalmente a própria sociedade — e, infelizmente, não apenas a elas.

 

Ao que parece, não está claro para determinados segmentos institucionais da justiça — e até mesmo para agentes de segurança — a gravidade do que temos presenciado. A situação torna-se ainda mais alarmante quando recai de modo terrível sobre menores de idade e crianças.

 

Vivemos em uma sociedade anestesiada pelo narcótico da erotização e da excitação em torno do gozo imediato, frequentemente associado a aditivos químicos como o álcool e outras drogas. Esses elementos tornaram-se parte da vida cotidiana de forma pronunciada e produzem um verdadeiro efeito cascata. Esse processo costuma iniciar-se pelo autoengano e, não raramente, é acompanhado por erros conscientes manifestados em escolhas deliberadas.

 

Diante das circunstâncias que atravessam a experiência humana, supõe-se a presença de algum grau de discernimento e inferência de juízo. Ainda assim, nesse processo marcado pela alternância entre erro e autoengano, estabelece-se um movimento no qual o sujeito tende a justificar ou minimizar as próprias escolhas. Em algum ponto dessa dinâmica, a culpa acaba por emergir — e é precisamente aí que se revela um ponto crítico da experiência humana.

 

Diante desse quadro, torna-se necessário reconhecer que o comportamento humano não se constitui apenas como expressão individual isolada. Ele também se organiza em diálogo permanente com estímulos culturais que orientam modos de desejar, de buscar satisfação e de evitar aquilo que se apresenta como desagradável.

 

Ao olhar leigo, tal movimento pode parecer apenas resultado de escolhas particulares. Contudo, quando examinado com maior atenção, percebe-se que muitos equívocos — e mesmo erros deliberados — emergem de um campo mais amplo de influências. Nesse campo, a cultura participa ativamente da formação de hábitos, expectativas e formas de satisfação.

 

Ainda assim, raramente essa dinâmica é equacionada de maneira lúcida, seja pela vontade, seja por uma autodeterminação consistente. O comportamento tende então a reinscrever-se em um sistema de dependência sustentado pelo estímulo e pela indução cultural à satisfação imediata.



Satisfação a Qualquer Preço e a Circularidade do Autoengano

 

A partir de conceitos da psicanálise, busca-se aqui compreender o funcionamento do comportamento humano em diálogo com o contexto sociopolítico e cultural que o atravessa. Trata-se, contudo, de uma abordagem apresentada de modo acessível, voltada a uma leitura mais ampla, sem abrir mão da consistência analítica.

 

O objetivo é observar como determinados modos de busca por satisfação se organizam na cultura contemporânea. Ao fazê-lo, pretende-se ampliar a compreensão do problema e refletir sobre possíveis caminhos de enfrentamento.

 

Mesmo diante do risco ou da consciência do ilícito, instala-se frequentemente um ciclo que alterna dor e seu modo de aplacamento. A solução buscada revela-se apenas paliativa, pois aquilo que se pretende resolver acaba reintegrado ao próprio mecanismo de engano. Reaparece, então, como tentativa de alívio para o sofrimento ou para a angústia.

 

Tudo isso pode ser considerado a partir de uma premissa relativamente simples: gozo não é o mesmo que prazer.

 

O prazer envolve memória, expectativa e busca de satisfação, dependendo de condições éticas e psicossociais para se realizar de modo consistente. O gozo, por sua vez, opera como tentativa de descarga imediata da tensão. A partir do registro de experiências de satisfação, busca-se repetir o alívio, muitas vezes saltando as etapas necessárias de elaboração.

 

O resultado tende a limitar-se a formas momentâneas de descompressão psíquica. Elas oferecem alívio imediato, mas raramente conduzem a uma satisfação mais plena e duradoura.

 

Nesse sentido, o direcionamento da libido — entendido como mobilização da energia psíquica — pode seguir dois caminhos: reduzir-se a descargas momentâneas de tensão ou orientar-se para processos de elaboração que permitam uma realização mais consistente.

 

Quando se dirige à elaboração, essa energia participa de um movimento produtivo de construção de sentido.

 

Tal elaboração constrói-se na relação com afetos e sentimentos que não se limitam à objetalização imediata do outro como simples fonte de satisfação instintual. Ao contrário, permite ao sujeito organizar de forma mais consistente o sentido de sua própria experiência e reconstruir caminhos que preservem um eixo ético no campo sociocultural em que se reconhece.

 

Nesse percurso, o autorreconhecimento envolve também a possibilidade de orientar a própria energia psíquica para experiências produtivas e realizadoras — de ordem amorosa, artística ou laboral. São modos de lidar com aquilo que, embora exija esforço e elaboração, possibilita respostas mais consistentes diante do conflito ou da angústia.


 



Problemas urgentes da experiência humana, sobretudo aqueles que mobilizam a angústia, raramente se resolvem pela pressa. Em geral, exigem cuidado, autorreflexão, autocrítica e uma busca consciente por ação orientada pela elaboração do que precisa ser compreendido e transformado.

 

Trata-se, porém, de um movimento frequentemente errático, sustentado por mecanismos sintomáticos que também se manifestam no plano coletivo. Em vez de promover um exame mais profundo de si, essa dinâmica muitas vezes desloca a culpa para um terreno pouco compreendido. Os prejuízos acabam sendo reconhecidos apenas quando servem para justificar novas rotas de fuga para o mesmo problema.

 

Soma-se a isso um incentivo constante ao gozo em uma existência marcada por pressões e opressões de múltiplas nuances. A busca por satisfação e alívio perde-se, assim, em meio a assédios, abusos e desvios sociais comprometedores.

 

Nesse contexto, a erotização da mulher — convertida em fetiche e promessa de satisfação sexual — ganha espaço na cultura.

 

Tal movimento manifesta-se também por meio da antecipação da fase adulta, estimulada pela sensualização difundida na mídia comercial e de entretenimento. Esse processo contribui para naturalizar precocemente certas dimensões da experiência humana e favorece a adesão a estímulos que instauram ambientes de relações sociais pouco saudáveis.

 

Cria-se, assim, um plano de reprodução simbólica que entra em conflito com aquilo que emerge, de modo mais próprio, no campo dos instintos e da experiência sexual. Forma-se um modo de estar no mundo que tende a naturalizar a busca de satisfação como resposta imediata à frustração.

 

Nesse processo instala-se uma forma de submissão pouco percebida como tal. Ela é mediada por um contexto cultural que não apenas estimula, mas também legitima movimentos de satisfação orientados pela erotização e, por consequência, pelo gozo.

 

Consolida-se, assim, a ideia de que é preciso aderir ao movimento do gozo, tendo o corpo simultaneamente como veículo e objeto dessa finalidade. O resultado é o direcionamento de uma busca de satisfação que deriva da deturpação do sentimento, reduzido a mero instinto.

 

Perde-se, desse modo, a lógica do que poderia ser o fluir da sexualidade como móvel inerente da experiência humana, compreendida em sua dimensão relacional e existencial.

 

Nesse quadro, o que se apresenta como encontro revela-se muitas vezes como investimento no gozo. Contudo, por sua própria natureza, o gozo não se configura como encontro, mas como uma saída momentânea que tende a repetir-se.

 

Trata-se de um movimento de retorno contínuo, no qual a satisfação buscada se reinscreve como demanda, aproximando-se da lógica de um sintoma que se mantém em funcionamento circular.

 

Na tentativa de adaptação — muitas vezes inconsciente — corre-se o risco de substituir a autodeterminação por uma dependência de sentido produzida externamente. O que se oferece como promessa de prazer revela-se, então, como gozo: uma experiência sustentada pela promessa contínua de satisfação, mas que raramente se realiza de modo pleno.





Consumo, Erotização e a Produção Cultural da Violência

 

Na dinâmica da busca constante por satisfação por meio de prazeres imediatos, já não está em jogo uma relação sexual constituída como premissa de vínculos consentidos e relações amorosas. O que se observa é a passagem para modos mais superficiais e contingenciais de relacionamento, frequentemente expressos na lógica do “ficar”.

 

A diferença em relação ao passado é que tal dinâmica aparece hoje associada a crimes graves e a danos profundos contra menores. A pedofilia, que circula de modo subterrâneo na internet, tornou-se também palco de estupros virtuais.

 

Esse fenômeno intensifica-se sobretudo com o uso de recursos de inteligência artificial capazes de criar imagens de nudez ou atos sexuais a partir de qualquer fotografia disponível.

 

O que se verifica nessa discussão é a abertura de uma verdadeira porta para a violência em múltiplas nuances, chegando, em seus casos mais graves, à constituição de crimes.

 

Muitas dessas violências permanecem invisibilizadas ou subdimensionadas, inclusive por aqueles que recebem mandato público para zelar pelo bem-estar social e pela proteção da população.

 

Espera-se que o façam por meio da regulação adequada da comunicação e dos serviços operados por plataformas digitais. No entanto, tais operadores frequentemente assumem, na prática, uma posição de permissividade ou omissão diante de algo que parece orientado prioritariamente pela rentabilidade comercial.

 

As questões que envolvem sexualidade e erotização tornaram-se também parte de um modo de difusão cultural e comercial. O entretenimento e a publicidade encontram-se impregnados de estímulos eróticos que normalizam a objetificação da figura feminina como fonte de satisfação.

 

Nesse cenário, erotização e ostentação tornam-se duas faces de uma mesma moeda.

 

Casos como o de Jeffrey Epstein revelam como redes de poder, dinheiro e influência podem sustentar práticas abusivas por anos. De modo semelhante, episódios envolvendo corrupção política e ostentação ilustram como a lógica do excesso e do consumo pode assumir contornos compulsivos.

 

Nesse contexto, observa-se uma situação em que empresas acabam por facultar, ainda que indiretamente, a circulação de práticas que favorecem o crime e a crueldade.

 

Embora disponham de ampla capacidade tecnológica para produzir, difundir e organizar conteúdos em escala global, frequentemente alegam não possuir meios plenamente eficazes para controlar os modos de uso e acesso às suas plataformas. Para sustentar tal posição, invocam princípios como a liberdade de expressão e a inviolabilidade da comunicação entre usuários.

 

Essa justificativa, contudo, vem sendo cada vez mais contestada por especialistas em comunicação, direito digital e políticas tecnológicas. Argumenta-se que os mesmos sistemas algorítmicos capazes de orientar fluxos de informação e maximizar o engajamento poderiam também ser mobilizados para conter dinâmicas nocivas.

 

Nesse cenário, a internet passa a ser compreendida por muitos analistas como um novo duto de difusão de contaminações sociais, cujos efeitos podem produzir prejuízos humanos de grande alcance.

 

Tudo pode ser analisado sob a ótica de causa e efeito. Ainda assim, a realidade impõe um curso de escolhas e consequências. Estas ditam o ritmo da verdade — aparente ou não —, muitas vezes movidas por interesses que se favorecem de circunstâncias criadas de modo enganoso ou errático.

 

Apesar disso, o sentir humano conserva a possibilidade de distinguir entre o certo e o errado. É preciso buscar, para além do gozo como simples alívio da pressão, um modo de satisfação que faça sentido — um modo em que atos e consequências possam ser ponderados sem dolo e sem danos a quem quer que seja.

 

Conclui-se, portanto, que os danos decorrentes de enganos e erros deliberados exigem consequências reafirmadas por sanções punitivas. Isso implica também políticas públicas e leis regulatórias que cumpram, de fato, um papel responsável na proteção de meninas, meninos e famílias brasileiras.

 

Não é mais possível conviver com erros tão graves e recorrentes que repercutem negativamente sobre a coletividade. Seguir exemplos de países mais desenvolvidos implica barrar o dano antes que tudo termine mal. Porque aquilo que começa mal tende a terminar mal.

 

Alegar ausência de alternativas pode ser um engano; persistir no erro é ainda pior.

 

É necessário pautar, na liturgia dos cargos públicos, o cumprimento rigoroso das leis, sem desconsiderar o fator humano. É inadmissível que juízes, desembargadores, deputados, senadores ou governantes não compreendam que devem responder pelas escolhas que fazem ao adentrar a vida pública.

 

Cabe-lhes dedicar discernimento e responsabilidade ao bem comum. Somos parte de um mesmo sistema e, sendo ele bom ou ruim, seus efeitos inevitavelmente nos alcançarão.

 



Fotos: Banco de imagens Canva.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Contato com site

Mande sua mensagem

Receba atualizações

Obrigado pelo envio!

© 2025 por A NOZ [mundo] com Wix.com

bottom of page