Deu Branco
- anozmundo
- 21 de mar.
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Quando se Esquece do Essencial

[ por Adriano A. Barboza | 21/03/26 ] .
Diante de ações desrespeitosas que se protagonizam no cenário brasileiro — em um tempo que exige reflexão, bom senso e, sobretudo, conduta proativa voltada ao avanço sociopolítico e cultural do país —, observa-se a instauração de performances ofensivas que se apresentam sob o pretexto de protesto. Discordar é parte constitutiva da liberdade de expressão e, em seu melhor sentido, favorece o diálogo e a construção de caminhos comuns. No entanto, o que se constata segue na direção oposta.
Entre encenações de traço burlesco e oportunista — inclusive em espaços institucionais como a Assembleia Legislativa de São Paulo — e a recusa em construir pautas essenciais e soluções concretas para enfrentar crises reais, como as que envolvem o regime da jornada de trabalho, o abastecimento de combustível e a economia nacional em tempos restritivos de guerra, delineia-se um mesmo eixo: um movimento anti-avanço, no qual o valor maior parece residir não na construção, mas na desqualificação de pessoas e projetos.
Não há dúvida de que certas questões, por vezes, passam despercebidas, sem que se lhes dê a devida atenção, como no caso das agressões de todo tipo. Isso não se deve apenas à distração. Há uma tendência ao esquecimento oportuno, que substitui a elaboração pela omissão. Em vez de enfrentar o que exige revisão, perde-se tempo — e, com ele, a possibilidade de progresso. O que vem à tona, nesse contexto, não encontra voz — e, assim, não se faz justiça. É abafado, contido, sufocado. Impede-se, assim, que se passe a limpo aquilo que poderia ser revisto em direção ao aprimoramento.
O que se apresenta como oportuno ou conveniente carrega, muitas vezes, uma ambiguidade estrutural. Ainda que atravesse dimensões inconscientes, sustenta-se também em escolhas deliberadas. É nesse ponto que aquilo que poderia ser imaturidade ultrapassa esse registro e se configura como erro efetivo. Um erro que não se orienta pela verdade. E onde está a verdade? Não naquilo que se dá no campo da narrativa e busca se dizer legítimo, mas no que se sustenta como liberdade real. O que insiste numa defesa de suposto valor revela, na verdade, sua inconsistência. O que não é legítimo é desqualificar o ser humano pelo motivo que for contra a sua integridade e direitos.
É nesse horizonte que se evidenciam condutas da ordem do contrassenso, sobretudo quando se observam pautas fundamentais à vida social brasileira, como aquelas que atravessam as questões de gênero, dignidade e reconhecimento. A atuação de Erika Hilton, por exemplo, insere-se de modo legítimo e expressivo nesse campo. Trata-se de uma atuação que se articula com a defesa da dignidade humana contra a tentativa de desqualificação, da ausência de reconhecimento de direitos, sobretudo de setores historicamente vulnerabilizados.
Discutir o direito à saúde mental, ao tempo e à integridade da vida não é algo secundário. Esse é o caso da pauta necessária acerca da forma como o trabalho se organiza e impacta diretamente a existência. A vida não pode ser reduzida à produtividade, nem o trabalho elevado à condição de único sentido possível. Em um tempo em que a tecnologia amplia horizontes, seria razoável que ela servisse à vida plena, e não à sua restrição.

Nesse sentido, discutir modelos mais justos de jornada — pauta, entre outras, defendida por Erika Hilton —, superando formatos sacrificiais e tomando o regime 5x2 como referência mínima, com possibilidade de avanços, é responder a uma realidade concreta e à necessária reorganização do trabalho em tempos de avanço tecnológico, com vistas a um melhor equilíbrio entre vida e trabalho. Trata-se não apenas de redistribuir tempo, mas de reequilibrar as relações entre vida e trabalho, inclusive como forma de absorção mais ampla da força de trabalho.
Milhões de brasileiras e brasileiros vivem entre deslocamentos longos, transporte precário e rotinas que sacrificam a vida doméstica, os vínculos e a formação dos filhos. Ainda assim, o que se observa em muitos espaços ditos republicanos é a ausência de uma prática efetiva de liberdade, substituída por uma liberalidade que desconsidera o outro e esvazia o sentido de responsabilidade coletiva.
É precisamente nessa distorção que o desrespeito se converte em espetáculo. A encenação protagonizada por uma deputada estadual vinculada ao Partido Liberal, que adota simbolicamente o sobrenome “Bolsonaro” como forma de identificação política com Jair Bolsonaro, exemplifica esse processo. Ao recorrer à performance em caricatura como forma de intervenção pública, desloca-se o debate para o campo de um falso pretexto. Ao questionar a legitimidade de Erika Hilton em espaços institucionais voltados aos direitos das mulheres, especialmente por sua condição de mulher trans, não se promove debate. Reafirma-se, antes, uma lógica de exclusão. Trata-se menos de protesto e mais de uma recusa do outro enquanto sujeito legítimo.
Esse tipo de gesto não ocorre em vazio histórico. O sofrimento das pessoas negras no Brasil constitui uma memória concreta, transformada em luta ao longo do tempo. Trata-se de uma luta afirmativa, não de encenação. Quando essa memória é instrumentalizada ou reduzida a performance, o que se produz é uma agressão à própria possibilidade de construção coletiva. Como já indicava Andy Warhol, a busca por visibilidade pode transformar qualquer ato em espetáculo. No entanto, quando essa visibilidade se constrói à custa da desqualificação de experiências históricas, revela-se mais sobre a intenção do gesto do que sobre sua legitimidade.
Nesse cenário, a liberdade de expressão é frequentemente invocada como justificativa absoluta — como se autorizasse qualquer enunciação, em qualquer forma. Contudo, expressão não se dissocia de responsabilidade: o direito de dizer não elimina o dever de responder pelo que se diz.
Do mesmo modo, não é por meio de encenações caricatas — que, ao fim, tornam-se desrespeitosas — que em nada consiste por defender e acessar a experiência do outro. É no reconhecimento das diferenças e na disposição ética de se somar às lutas que se constrói um campo comum.
Não se trata de interditar a participação, mas de qualificá-la. É possível — e necessário — que aqueles que não sofrem diretamente determinadas violências se posicionem contra elas, desde que o façam a partir do lugar que ocupam, e não por sua falsificação.
Essa discussão ganha ainda mais densidade quando situada no contexto político mais amplo, especialmente em um período pré-eleitoral. Nesse momento, cada gesto tende a ser atravessado por interesses estratégicos. Soma-se a isso o cenário internacional de guerra, cujos efeitos econômicos e sociais se fazem sentir de forma concreta no Brasil. Diante desse quadro, não se trata de escolha, mas de exigência. É necessário adotar medidas que mitiguem os impactos sobre a população, sobretudo no custo de vida, no abastecimento e na estabilidade econômica. Essas ações devem se orientar pelo compromisso com o bem comum, e não serem instrumentalizadas como dispositivos de disputa eleitoreira.
Entretanto, o que se observa, em muitos casos, é a recusa em colaborar com soluções que poderiam beneficiar diretamente a população. Trata-se de uma recusa motivada menos por critérios técnicos e mais por cálculos políticos. Medidas como a redução de impostos sobre combustíveis ou a tentativa de equalização de custos entre entes federativos acabam sendo tensionadas por interesses que priorizam o desgaste do adversário e não da sociedade brasileira. O resultado é o agravamento das condições de vida da população. Quando lideranças se colocam como opositoras sistemáticas, esquecendo-se daquele a quem dizem representar — o povo —, a política perde seu sentido mais elementar. É nesse ponto que a memória deve operar como critério. As ações de hoje não podem ser apagadas amanhã.
Ao final, impõe-se a necessidade de superar uma política fundada em falsos propósitos, que, em última instância, não alcançam o bem comum de modo consequente e positivo. Protestos que se esgotam em si mesmos, discursos orientados apenas pela repercussão e decisões guiadas por conveniências imediatas não respondem à complexidade do país. O Brasil exige mais do que encenação: exige responsabilidade, consistência e compromisso com o real.
Imagens: Banco de imagens Canva,




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