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De que Mulher se Pode Falar em Nosso Tempo?

  • anozmundo
  • 12 de mar.
  • 7 min de leitura

Cultura, Poder e a Dinâmica de Novas Existências



[ por Adriano A. Barboza | 12/03/2026 ]


Questionar o que parecia natural

 

Não tenho dúvida de que a sociedade atravessa impasses e, sobretudo, uma transição significativa. Algo semelhante já ocorreu em outros momentos históricos; contudo, agora esse processo se apresenta de forma mais exposta. Os olhos, vorazes, procuram apreender tudo o que podem. Por isso se abre — e até se espera — a necessária tarefa de uma apreensão subjetiva mais aguçada, capaz de não permanecer apenas na superfície.

 

Em certa medida, é justamente nesse plano superficial que muitos se perdem. Entretanto, é também ali que começam a surgir pistas de caminho: quando tudo parece obtuso, a própria opacidade pode tornar-se convite à investigação mais profunda. Trata-se de atravessar camadas — inclusive aquelas em que a dor se manifesta como experiência social — para alcançar algo que não se deixa reduzir à vitrine do imediato. Mais do que aparência, trata-se de uma densidade de existência, como um mar cuja superfície apenas sugere o que está em suas profundezas.

 

Aquilo que antes era tomado como certo passa a ser interrogado; o que se afirmava como natural revela-se, muitas vezes, como construção. As questões se transformam e mostram-se solidárias ao tempo, que avança trazendo consigo novas formas de conflito e de elaboração. Mesmo quando esse processo não é percebido de maneira gradual, ele acaba por abalar orgulhos, provocar confrontos e expor angústias próprias das tensões sociais. O que antes permanecia circunscrito ao âmbito individual começa a aparecer como experiência coletiva.

 

Pode-se dizer que algo pede para ser descoberto e permanecer à mostra. Ou, talvez mais precisamente, já esteja à mostra, mas peça passagem para organizar-se em fala — movimento que constitui a própria elaboração analítica. O tempo atual exige nomeação. Aquilo que antes permanecia disperso busca agora uma forma.

 

Erro masculino e autoengano sobre o coletivo

 

Durante muito tempo, aceitou-se uma moderação moral pautada na lógica da força e do poder. Tratava-se de um poder primitivo, imposto pela identidade fracassada de quem se proclamava justo — geralmente o homem que se via como senhor de tudo.

 

Esse sujeito era, ao mesmo tempo, senhor e escravo de seu próprio negacionismo da vida real. Exercia ingerência sobre aqueles e aquelas considerados subordinados a um status que, paradoxalmente, revelava sua própria fragilidade. A ganância e a covardia, sustentadas por legiões de seguidores, mantinham um poder desconexo do sentido lógico do bom caminho.

 

Essa perspectiva consolidava o autoengano como lei. Um rei tirano atacava a si mesmo e aos outros, sustentando-se no arbítrio e na ilusão de uma deliberação lógica. O engano parecia coerente, mas era apenas servidão mascarada.

 

Assim, o indivíduo dividia-se contra si mesmo. Estendia sua própria ilusão sobre muitos outros, ampliando uma rede de submissão que produzia farsa, crise e formas difusas de escravidão coletiva.

 

O autoengano, apresentado como força ameaçadora, marcava a pele social. Manifestava-se no status, nas categorias socioculturais e, sobretudo, na classe econômica. Foi assim que se definiram identidades e se determinou quanto alguém deveria submeter-se diante da ausência de autonomia em seu próprio percurso de vida.

 

Formou-se, então, a ideia do homem generoso — um engano coletivo que acabava conduzindo o próprio tirano à sua derrocada. Preso em sua armadilha, ele precisava sustentar alegorias e faces amargas de uma prisão que ajudou a construir.

 

Nesse cenário, a mulher tornou-se frequentemente o esteio que sustentou a agonia social dessa fantasia patriarcal de ser senhor de tudo. Quando confrontado com o vazio de sua própria construção, o tirano se desorganiza e tenta negar aquilo que ele mesmo se fez acreditar.

 

A desilusão cobra preço amargo. Torna-se ainda mais dura quando se acumulam as consequências de escolhas equivocadas, muitas vezes atravessadas por rituais e liturgias que buscavam legitimar o que não podia ser dito como realmente era — apenas como se desejava fazer crer que fosse.

 

A dinâmica do poder e da submissão

 

Nesse contexto, a relação entre opressor e oprimido foi — e, em certa medida, ainda é — marcada por uma lógica de preponderância: quem pode desfrutar de independência e quem deve permanecer submetido.

 

Quando essa estrutura não é plenamente reconhecida, perde-se também a possibilidade de afirmar aquilo que constitui o núcleo da experiência humana: a busca por reconhecimento e liberdade. Durante muito tempo, essa dinâmica se organizou em uma gradação hierárquica de poder e submissão inscrita nas categorizações socioculturais que definiam posições de prestígio ou de desapreço.

 

Aceitou-se, por largos períodos, uma espécie de moderação moral fundada na lógica da força. Ela incidia sobre o tecido social por meio do status, das classificações socioculturais e, sobretudo, da posição econômica. Assim se definiam identidades e se determinava até que ponto alguém deveria submeter-se diante da ausência de autonomia no curso da própria vida.

 

Essa dinâmica parecia justificável como ordem natural. Mobilizada pelo poder e intensificada pelo valor atribuído à posição social, seu peso tornava-se objetivo sobretudo pelo lastro econômico, que frequentemente operava como principal organizador da hierarquia social. No âmbito político, tais elementos também delimitavam o espectro em que a vida coletiva se expressava: um jogo marcado por pré-definições e constrições voltadas ao domínio.

 

Ainda assim, essa estrutura constituía parte de um nó mais complexo, situado entre a objetividade das instituições e uma subjetividade frequentemente mantida sob controle.

  

Novas possibilidades de encontro com a independência

 

Mais recentemente, algumas inflexões começam a surgir. O advento de novas formas de trabalho, associadas ao estatuto de empreendedor, introduz certo deslocamento nesse cenário. Ainda que tais modelos não eliminem relações de subordinação, passam a ser percebidos como possibilidades de ruptura — ao menos parcial — com antigas estruturas de mando.

 

Essa distinção torna-se relevante para a análise aqui proposta. Afinal, independência pertence à ordem da liberdade e não se confunde com liberalidade. Esta última consiste em agir sem consideração pelo outro; a independência, ao contrário, implica reconhecer a própria autonomia sem negar a existência do outro.

 

Nesse sentido, a independência torna-se ponto crucial para compreender as relações de força nas dinâmicas políticas, sociais e culturais.

 

Aquilo que hoje se expressa de modo visível muitas vezes assume a forma de imagem, sobretudo em tempos de mídias digitais e de autoimagens construídas sob o olhar do outro. Em muitos casos, essas representações acabam por situar o sujeito dentro de uma realidade artificialmente construída. Pessoas — mulheres, homens, sujeitos trans ou não — passam então a ver a si mesmas como objetos de um ideal de eu que raramente se sustenta como projeção realista.

 

Com frequência trata-se de uma imagem destituída de verdade e naturalidade.

 

Em contraste, a expressão singular de uma pessoa nasce da pluralidade de experiências que a constituem. No fundo, cada sujeito luta para não ser apenas mais um entre tantos. Aquilo que antes parecia inalcançável começa, em alguma medida, a apresentar-se como horizonte possível de relativa autonomia.

 

Contudo, como já se observa em muitos contextos — como no caso de entregadores de aplicativos —, essas novas formas de trabalho frequentemente se desvinculam mais de um controle direto do que produzem efetiva emancipação. Persistem a ausência de direitos, a insegurança diante de acidentes e a inexistência de garantias básicas.


Memória, ruptura e reconfiguração cultural

 



Ao considerar as amarras culturais que historicamente se impuseram no plano sociopolítico — sustentando desigualdades de direitos e valores em torno de gênero, raça, etnia e classe socioeconômica —, verifica-se que a própria história, não raro, apresenta gestos exemplares de ruptura, quase sempre marcados por conflitos e embates.

 

Algo semelhante pode ser observado no gesto de Gisèle Pelicot. Ao expor publicamente a violência de que foi vítima, ela transforma a humilhação em ato de memória e testemunho. É como lavar uma peça de roupa encardida e colocá-la ao sol com alvejante: não para ocultar a mancha, mas para submetê-la à luz e ao tratamento que permitem depurá-la. A exposição, nesse sentido, não encobre o dano; ao contrário, cria as condições para que aquilo que estava marcado possa ser reconhecido e, então, tratado.

 

Ainda assim, Pelicot optou por manter o sobrenome do ex-marido, pensando nos netos, que não poderiam simplesmente abandoná-lo. Nesse gesto, a marca transforma-se em afirmação. Não se trata de submissão, mas de uma inversão simbólica: aquilo que antes servia à humilhação converte-se em registro e testemunho.

 

É nesse ponto que algo começa a mudar — não apenas na história individual, mas também no curso conceitual de uma cultura que passa a confrontar as estruturas que sustentaram sua desigualdade.

 

Já não cabe categorizar aspectos circunstanciais como definidores de pessoas, pois isso as transforma em objetos. Essa lógica aparece também nas mídias e sistemas de comunicação, onde a estética das formas se projeta sob a voracidade do consumo e sob a promessa idealizada de satisfação.

 

Mas ninguém deve ser objeto de satisfação.

 

Tomar o outro como tal revela uma compreensão empobrecida da relação humana, frequentemente presa ao gozo imediato — terreno fértil para vícios, dependências e compulsões.

 

Talvez nada mais seja exatamente como antes — e isso pode ser motivo de esperança. Ainda assim, não se podem repetir os caminhos que produziram os mesmos erros.

 

Quando algo é conquistado, é preciso preservá-lo. Caso contrário, corre-se o risco de girar em círculo, buscando algo que carece de consistência.

 

Com os direitos ocorre o mesmo. A liberdade possui valor inestimável e não pode ser abandonada à crença de que tudo funcionará automaticamente. Quando isso acontece, perde-se aquilo pelo qual tanto se lutou — e, com isso, também a independência.

 

Muitas das violências hoje discutidas em termos de gênero derivam justamente de um atavismo do poder: a ideia arcaica de que a autoridade permitiria agir de modo autoritário, sem consideração pelo outro.

 

Entretanto, existimos sempre em relação. Vivemos ao redor do outro, em uma convivência que exige responsabilidade.

 

Por isso, procuro — ou tento — combater ideias, não pessoas. Não distingo indivíduos para valorizá-los por critérios de gênero, mas pelo critério de pessoa.

 

Apesar de minhas próprias precariedades, procuro sustentar ao menos uma regra simples: dizer sim quando é sim, e não quando é não.

 

E lembrar, com as palavras de Caetano Veloso: “O certo é saber que o certo é certo.”

 

Resta, então, lutar por aquilo que permanece essencial: a igualdade de respeito.



Imagens: Banco de imagens Canva.

 
 
 

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