Alguma Coisa Está Fora da Ordem, Fora da Ordem Natural
- anozmundo
- 29 de jan.
- 4 min de leitura

por Adriano A. Barboza --- [14/11/25] |
Diante de um cenário em que a realidade se impõe de modo magnânimo e implacável, a natureza torna-se exímia cobradora das ações nocivas — ou da ausência de responsabilidade que leva em conta um senso consequencialista — do fazer humano sobre ela. Nesse contexto, deparamo-nos também com um olhar crítico e autocrítico sobre os movimentos relacionais da humanidade com o mundo, sua casa. Contudo, parece claramente sabido que não se trata, e nunca se tratou, de algo simples.
Quando buscamos compreender acontecimentos que seguem um mesmo sentido lógico, acabamos por nos deparar com o que se apresenta como destoante e que, por sua vez, se traduz como absurdo por ser de radical posição oposta. Ele assim o é porque já se estabeleceu um nível de consciência assentado no óbvio — e dele resultante. Existe, portanto, um óbvio constituído por lógica e coerência, e sua distorção radical configura o absurdo.
No entanto, há um impedimento que gera conflito e angústia diante da coexistência de indivíduos e de modos de vida sociopolítica e cultural que dependem de decisões, deliberações e ações.
Essa tem sido, em grande parte, a perspectiva que se apresenta em torno da COP 30: é preciso avançar em termos práticos, sustentados por perspectivas analíticas, técnicas e científicas que deem conta de um debate que há muito se impõe. Apesar da necessária avaliação cautelosa dos movimentos que emergem desse debate, observa-se que outros atores coletivos, de grande potencial positivo, ainda deveriam estar mais envolvidos nas ações propostas.
Para tanto, mesmo que tais ações não estejam, de início, plenamente aperfeiçoadas, é do seu exercício que advém o próprio aperfeiçoamento. Assim, um dos papéis das COPs parece ser o de pensar soluções, planejá-las para a prática e realizar análises contínuas que permitam aperfeiçoá-las à medida que se desenvolvem.
No campo da responsabilidade e da perspectiva consequencialista, vemos, de um lado, aqueles que exploram recursos sem refletir sobre danos e soluções e, de outro, aqueles que, com consciência e empenho, buscam trazer à luz questões fundamentais para encontrar saídas e novos pontos de partida para uma realidade melhor.
Eventos como a COP podem ser comparados a uma grande reunião de condomínio: todos são convocados, mas apenas parte comparece para discutir, decidir e deliberar. Mesmo assim, persistem divergências, e as propostas raramente alcançam consenso — ou pelo menos aquilo que se considera ideal para equacionar determinada questão.
Dentro dessa perspectiva, pode-se considerar que as soluções precisam ser conjugadas e consideradas sob duas vertentes: a ideal e a possível. Dentro desse tipo de trabalho coletivo, que exige concertação, pode-se — ou deve-se — manter o foco no ideal, ao mesmo tempo que se realizam ações no campo do possível. Isso leva, por sua vez, à sensação de dar dois passos para frente e um para trás.
Não obstante, os projetos e medidas de aprimoramento e sustentabilidade acabam dependendo, ao menos, do compromisso daqueles que se dispõem à ação. São esses que constroem condições inovadoras e mantêm um olhar propositivo sobre aquilo que afeta todo o planeta — o “condomínio” comum em que vivemos. Enquanto isso, outros continuam a ignorar as lógicas consequenciais que exigem uma relação ecológica sustentável.
A segurança ambiental e climática deve, de fato, ser pensada sob uma lógica consequencialista. Trata-se de um problema humano, ligado à necessidade e à vontade de encontrar resultados que dependem de um movimento responsável de medir as consequências das ações empreendidas — tanto na execução quanto na análise dos modos de fazer, sob o enfoque de resultados desejáveis. Afinal, todo comportamento deriva em consequências, e buscá-las como resposta positiva, de ampla adesão, torna-se necessário diante de movimentos humanos que optam pela economia de custo imediato, sem perceber o alto custo coletivo que retorna ao seu emissor como um bumerangue.
Eis aí o dilema: lidar com o que menos gostamos, o que exige esforço e ação dentro de uma economia psíquica e prática. Resultados altamente produtivos emergem da constância, não de atalhos. Estudar a vida humana como um sistema “econômico” de funcionamento permite considerar a alteridade em um mundo ainda ancorado em defesas diante de seus temores e valores.
Esse mundo pauta-se em diferenças, privilégios e confortos irrestritos que buscam satisfação imediata. Tal satisfação, porém, não se realiza como prazer efetivo — fruto de superação e trabalho —, mas como refúgio que aliena da realidade. Em vez de enfrentar o necessário, o indivíduo gira em torno de si mesmo, postergando mudanças e repetindo o que lhe causa desconforto. A solução aparente é uma satisfação ilusória, que alivia sem resolver, alienando e consumindo aquele que nela se refugia.
Está em jogo, de forma intrínseca, a questão dos regimes econômicos que sustentam e, ao mesmo tempo, fragilizam o planeta. O imediatismo busca extrair o máximo lucro com custos reduzidos e segue assim até o esgotamento e a falência do sistema extrativista. Nesse processo, degrada-se o espaço natural e roubam-se duas formas de riqueza: a econômico-financeira e, sobretudo, a da manutenção da vida natural. O território adoece e, em vez de regenerá-lo, migra-se para outro, repetindo a mesma lógica danosa.
Tudo isso ocorre enquanto o real equilíbrio econômico — que deveria considerar a relação custo-benefício de forma ampla — é posto de lado. Essa lógica revela um egocentrismo inconsequente e autodestrutivo, que já cooptou indivíduos e instituições sob a aparência de risco “calculado”, movido pela busca de liquidez imediata, sem notar que o próprio sistema ruirá.
A mobilização que se apresenta na COP 30 — especialmente por estar na Amazônia — permite, contudo, que delegações, especialistas, organismos e a sociedade civil nacional e estrangeira se articulem em prol de uma leitura significativa que possibilite pensar soluções capazes de encontrar, nesse ambiente natural, uma realidade inspiradora, multiplicada pelo potencial do próprio natural, que o mundo tanto sofre para manter e valorizar. Essa mobilização pode tornar-se promotora de potenciais sustentáveis, construindo transições alinhadas às tecnologias e às inteligências artificiais que devem compor mecanismos efetivos de proteção e segurança ambiental e climática.
Mais do que conter o aumento da temperatura global, trata-se de deslocar a lógica: não tomar o nocivo como referência a ser neutralizada, mas estabelecer um novo ponto de partida capaz de produzir vida — e vida em abundância — para todas, todes e todos, conforme nos foi legado pela evolução natural do planeta.
Foto: Ricardo Stuckert / PR [COP 30, Novembro/2025]




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