Agressão à Mulher: Desde Quando e Até Quando?
- anozmundo
- 29 de jan.
- 6 min de leitura


Eis que nos deparamos com fatos noticiados que trazem estatísticas tristes e terríveis, revelando a barbárie que emerge e choca muitos que jamais imaginaram assistir a agressões e mortes cometidas por parceiros ou ex-parceiros. Relações que um dia se diziam fundadas na idealização de amor convertem-se, diante da frustração da separação e da perda de controle, em atos de violência que fazem questionar se ali houve amor ou se, na essência, predominou uma lógica de conveniência, prazer e domínio. Talvez, desde o início, tratasse-se de vínculos mantidos por estruturas amorfas e assimétricas, distantes da reciprocidade que sustenta relações nas quais homens e mulheres constroem, juntos, caminhos possíveis de entrega mútua.
Analistas — e a sociedade como um todo — mostram-se hoje estarrecidos com os números crescentes de fatos que parecem corresponder a uma porta aberta para a violência, cuja origem ninguém sabe ao certo de onde surgiu. Mas será mesmo algo novo em essencia? É necessário olhar o fenômeno com objetividade, ainda que sua complexidade assuste e exija um novo modo de compreendê-lo estruturalmente, sobretudo quando observamos uma geração entre 20 e 40 anos que aparece, de forma expressiva, nas atuais estatísticas de agressões e feminicídios.
Surge, então, a pergunta incontornável: por que esse aumento agora?
Sem estacionar em um reducionismo que atribua tudo à superexposição midiática — embora esta seja um elemento a considerar —, é preciso observar um ponto decisivo: como viviam muitas de nossas avós e bisavós em suas relações conjugais? Para muitos, eram mulheres vistas como sérias, pacatas, cordatas e em certa medida em paz — que mais ouviam e anuíam do que expressavam algo em contrário —, permanecendo, muitas vezes, em silêncio. Mas, afinal, a que custo?
O calar é, aqui, um elemento nada insignificante. Afinal, a violência — física ou psicológica —, em muitos casos, funcionava como coerção direta à submissão e se perdia em cenários familiares que aparentavam compreensão e harmonia, mas sustentavam, na realidade, a afirmação de força e autoridade masculinas. Era um modelo cultural que moldava comportamentos e impunha silêncio. Muitas avós e mães calaram a dor para “manter a família” unida e preservada, cujas tentativas de reivindicar igualdade de direitos esbarravam na dependência econômica, em normas rígidas ou, simplesmente, na inexistência de alguém a quem recorrer. Afinal, o trauma é a dor que não encontra palavra — e, naquela época, falar para quem?
O que se pode considerar como recorrente nesses casos, inseridos em determinado conjunto cultural patriarcal e marcados pelo espectro de domínio de clãs — ainda que já atualizados —, deriva de um movimento que predominou até as décadas de 1960 e 1970 e que, a partir dos anos 1980, começou a entrar em choque com mudanças mais substanciais nas condições sociais e na cultura. Especialmente no que dizia respeito ao enfrentamento de uma tradição viciosa, sustentada por comportamentos recalcitrantes e por um silêncio forçado que constituía um verdadeiro cativeiro emocional. Tudo era regulado por rédeas curtas e pela ideia de que, “por isso mesmo, ninguém devia meter a colher”.
A violência tornava-se instrumento de domínio territorial — simbólico e concreto — pelo qual o homem assumia para si o lugar de “dono” da relação, legitimado por uma meritocracia de gênero naturalizada. Nesse contexto, a manipulação da dor configurava-se como forma de impedir qualquer gesto de rebeldia. A cultura do “macho adulto, branco, sempre no comando” — como expressa Caetano Veloso em verso de leitura antropológica sobre a cultura que nos captura — evidencia o quanto esse modelo se manteve de forma recalcitrante, legitimado pela conveniência daqueles que dele se beneficiam. Trata-se de uma estrutura que opera segundo uma lógica obtusa, marcada pela cegueira e pela defesa enérgica de uma tradição que, justamente por sua natureza opressiva, exige revisão e desconstrução urgentes.

SISTEMAS INTELIGENTES DE SOCORRO
[...] impõe-se a necessidade de canais de socorro ágeis e acessíveis, permitindo que uma mulher acione um pedido de ajuda com um simples comando no smartphone. O dispositivo, ao enviar automaticamente sinais de emergência e permitir seu rastreamento, possibilita a atuação imediata de uma equipe policial capacitada — ou do contingente existente posicionado em raio mais próximo do pedido de socorro.[...]
É desse núcleo que emerge a figura de homem velho – ser humano fora de atualização com o mundo e que deveria cair, mas luta por permanecer onde está. Eis a grande trava culturalizada: o lugar no alto do pódio, imaginado como posição soberana e definitiva. Preso a essa fantasia, ele não encontra motivo para descer, tampouco percebe o que essa fixação implica de irrisão, cegueira e autopremiações tolas — sendo a mais conhecida delas a máxima de que, atrás de um homem vitorioso, haveria sempre uma mulher. Trata-se, na verdade, da denúncia de um roubo sistemático de protagonismo e mérito, que ontem e hoje converte tantas mulheres na figura da “mulher atrás”.
Assim, preso ao tempo e ao mito que o sustenta, esse modelo organizava-se como dispositivo de coerção — e a submissão feminina surgia como sua consequência previsível e, pior, aceitável.
Esse mecanismo, em essência, é uma forma de terrorismo íntimo: manipulação emocional que mantém a vítima em estado de vigilância, medo e anulamento. Daí derivam comportamentos que, transmutados culturalmente, aparecem na contemporaneidade como bullying, humilhação ou violência relacional — ecos de um sistema que se perpetuou arraigado ao medo, à dor e à repressão das fragilidades de um modelo de masculinidade incapaz de se reinventar. Ou seja, o bullying é herdeiro direto dessa opressão maior, fruto de carreiras tradicionais de poder que ainda se expressam de modo inequívoco.
Na relação com a mulher, esse sistema expõe seu primeiro estágio na sexualização e no domínio — assentados e configurados, inicialmente, pelo sexismo e, em seguida, pela manutenção de um poder que não admite contestação, desdobrando-se, então, em misoginia. Trata-se de uma lógica delinquente de conquista e superação que molda adultos e jovens adultos sem limites, posicionados no topo de uma cadeia geracional distorcida, sustentada por uma visão de poder simbólico que, quando questionado, reage por meio da imposição, do controle e, não raramente, de formas simbólicas — e também físicas — de aniquilamento.
Nos últimos cinquenta anos — duas a três gerações —, a população duplicou, e a independência feminina transformou radicalmente as relações conjugais. O mecanismo antigo de manipulação e posse já não opera como antes. Esse descompasso entre o desejo de controle e a autonomia crescente das mulheres produz, em muitos homens, colapsos subjetivos profundos. Acostumados a um poder silenciosamente legitimado, não suportam perder o que tomavam como direito. A queda dessa estrutura — antes amparada pelo ocultamento — expõe fraturas que, outrora invisíveis, agora se tornam incontornáveis.
Vivemos, afinal, uma era marcada pela visibilidade: uma sociedade cada vez mais observadora, dotada de tecnologias que articulam inteligência, justiça e responsabilização. Nesse cenário, o uso de câmeras corporais não é apenas um mecanismo de registro; é a expressão de um tempo que exige transparência e lisura ética — ou, ao menos, legal. A prevenção e a proteção tornam-se inseparáveis da exposição clara dos atos, especialmente quando envolvem violência de gênero.
É nesse contexto que surge um debate cada vez mais recorrente: o estímulo para que mulheres busquem, individualmente, instrumentos ou técnicas de defesa pessoal. Embora essa proposta possa parecer, à primeira vista, uma ampliação de autonomia, ela se converte, na prática, em uma terceirização injusta daquilo que é dever do Estado. Ao deslocar para a vítima a responsabilidade de sobreviver, amplia-se sua vulnerabilidade, uma vez que o agressor — quase sempre movido por impulso premeditado e controle coercitivo — tende a agir de forma mais violenta diante de qualquer tentativa de resistência. Defender-se não apenas se torna improvável, mas potencialmente mais perigoso. Por isso, mais do que ensinar mulheres a se protegerem sozinhas, é indispensável fortalecer políticas de segurança pública específicas, capazes de prevenir, desativar e intervir de modo imediato em situações de risco — o que nenhuma ferramenta individual substitui.
Da mesma forma, impõe-se a necessidade de canais de socorro ágeis e acessíveis, permitindo que uma mulher acione um pedido de ajuda com um simples comando no smartphone. O dispositivo, ao enviar automaticamente sinais de emergência e permitir seu rastreamento, possibilita a atuação imediata de uma equipe policial capacitada — ou do contingente existente posicionado em raio mais próximo do pedido de socorro. Essa dinâmica permitiria desarticular um ataque antes que ele se concretize e, inclusive, intervir em situações em andamento, instaurando uma lógica de proteção ativa, e não apenas reativa.
Assim, o papel da polícia deixaria de se limitar ao registro posterior de crimes que apenas alimentam estatísticas negativas. Passaria a integrar uma estratégia inteligente de prevenção, intervenção e salvaguarda da vida. Cria-se, então, uma nova cultura de respeito, proteção e responsabilidade pública, configurando um horizonte mais promissor para a segurança das mulheres e para o fortalecimento de uma sociedade em que a defesa da vida volte a ser o princípio estruturante do poder público. Com isso, evitam-se agravamentos e ampliam-se as possibilidades de resposta rápida e eficaz, de modo que ações apoiadas em recursos tecnológicos e estratégicos ofereçam uma perspectiva real de cuidado, preservação da vida e atendimento protetivo. Trata-se, sobretudo, de cumprir uma função zeladora, capaz de se desdobrar por toda a estrutura social.
Imagens: Canva [fotos]




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