A Gente Não Mais Tão Secreto Assim
- anozmundo
- 29 de jan.
- 6 min de leitura
Um Resgate de Lugares Silenciados

[por Adriano A. Barboza | 24/01/26]
Particularmente, posso dizer que aquilo que vemos dá sentido ao que foi projetado; sentimos. Digo isso porque a cultura brasileira apresenta nuances e ramificações que se encontram num caldo cultural vivo, justamente por se comunicar entre meios, lateralidades geográficas, pluralidades e regionalidades muito expressivas.
Nesse sentido, penso que o trabalho que Kleber Mendonça Filho vem realizando não é apenas um destaque, mas uma construção consistente e importante para processos de identificação, num sentido de autorreconhecimento, bem como para a exposição de elementos da vida cotidiana e cultural que precisam ser vistos. Esses elementos não apenas se expressam e se demonstram, como também falam com o país e, agora, para além dele, como já vinha ocorrendo em obras anteriores a O Agente Secreto.
A perspectiva de uma obra cinematográfica — assim como a do teatro ou da música — reflete mais do que um simples sentido lúdico ou a mera expressão de sentimentos. Trata-se de haver-se com a realidade e de assumir um papel de revisão. Essa reflexão elabora o vivido e, mesmo sob a perspectiva ficcional, permite um avanço que não se reduz a uma produção destinada apenas ao entretenimento ou à venda de ingressos.
Embora o fator econômico seja relevante, pois atravessa diversas instâncias da vida sociocultural, aqui se busca tratar de algo distinto: furar a bolha da formatação cultural que molda hábitos, olhares e modos de relação com o coletivo. Trata-se de uma perspectiva muitas vezes diluída de sentido próprio na instância da identificação e do reconhecimento de uma realidade vivida a partir de um lugar natural, no qual se possa observar. É desse lugar que se pode encontrar uma fala e uma autoescuta, capazes de mostrar de si e para si uma perspectiva que se clarifica de modo universalizado, por ser parte de algo a ser conhecido por uns e reconhecido por outros.
Voltando-me à obra e às consequências regionais do cinema brasileiro, assim como de outras modalidades de arte que superam uma posição passiva de entretenimento, cabe dizer que O Agente Secreto provoca, ao menos em mim, um estranhamento necessário. Trata-se de uma quebra em relação à lógica da indústria cultural, que homogeneíza o olhar e o discurso. Quando tudo se repete na mesma direção, abre-se um vazio inconsciente que pede ruptura, um desvio do enredo circular que impede a abertura.
Partindo de um olhar situado no Sul do Brasil, mais especificamente no Rio Grande do Sul, de onde sou oriundo e onde construí minhas apreensões culturais de base, percebo a beleza de adentrar nas expressões de nossas regionalidades. Essas expressões não precisam se apoiar apenas em elementos épicos ou lendários, nem em curiosidades hiperbolizadas que acabam por empobrecer a leitura. Ao contrário, o encantamento está justamente na leitura natural e essencial da vida.
É nesse ponto que a vertente pernambucana, historicamente fora do eixo do audiovisual, mostra sua força. Ela valoriza atores e atrizes regionais, muitas vezes distantes de centros tradicionais de formação, e lhes oferece visibilidade concreta. Vemos isso, por exemplo, em desdobramentos como a série Guerreiros do Sol, que acolhe e potencializa atuações qualificadas de artistas que ganharam projeção não apenas de modo individual direto, mas também de maneira coletiva e imanente, a partir do trabalho de Kleber Mendonça Filho.
O Agente Secreto se apresenta, assim, como uma obra de arte maiúscula, integrada e respeitosa com sua origem local, ao mesmo tempo em que se insere numa ramificação mais ampla da linguagem cinematográfica. Há aqui um gesto precioso: deixar-se ser o que se é. Aquilo que é, é. Esse gesto encerra uma luta coletiva, feita de trabalho, realidade e necessidade de espaço. Um caminho trilhado com os próprios pés, reunindo pessoas de boa marcha, esforço, valor e talento.
Todo o elenco é excepcional. Destaco, de modo especial, a atuação de Dona Tânia Maria, cuja presença cênica é merecedora de reconhecimento. Sua performance parece trazer à tona aquilo que, talvez, uma vida inteira tenha sido guardado ou exercitado em silêncio, agora revelado a partir de um olhar sábio e atento.
O que mais dizer? Talvez nada diga mais do que a oportunidade de viver essa experiência como espectadores e beber dessa fonte. Ela nos permite pensar qual lugar merecemos neste país: o da valorização e do respeito, especialmente como forma de sobrevivência diante de tantas forças opressoras que, embora se imponham como grandes, revelam-se pequenas no curso da história. Reconhecer isso abre a possibilidade de novos caminhos sociais.
Ainda que não se alcance um ponto de virada ideal, torna-se claro que se realiza uma demarcação. Novos pontos de partida passam a se estabelecer a partir desse percurso já traçado. Trata-se não apenas de um registro, mas de uma motivação que convoca um olhar atento, sem retorno possível à negação ou ao ocultamento, pois aquilo que se põe em movimento passa a ter curso próprio e expressão por si.

Há, contudo, um estranhamento que atravessa toda a obra de Kleber Mendonça Filho. Ele já se fazia presente em filmes como O Som ao Redor, Aquarius e Bacurau. Este último amplia uma linguagem que articula cultura e política por meio da alegoria das relações humanas. São expressões de sintomas sociais — distintos do sintoma psicanalítico, mas igualmente estruturais, pois pertencem à ordem da cultura.
Em O Agente Secreto, esse estranhamento ganha outra tonalidade e atravessa as regionalidades brasileiras, alcançando também leituras externas ao país. Para mim, isso desperta orgulho: ver a vida se expressar em cultura e realidade sociopolítica e, ao mesmo tempo, afirmar a pluralidade de uma realidade afetada por questões geopolíticas globais.
Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura trazem à tona a questão da memória. O cinema cumpre, aqui, sua função de revisitar e reler aquilo que está posto, mas não dito. Há uma esperança que se expressa de modo secreto e, ao mesmo tempo, silencioso, dizendo o que precisa ser dito com um tom crítico singular. Trata-se de mostrar-se como se é, diante do mundo e de si mesmo.
Por isso, a linguagem do estranhamento é sempre benéfica. Ela permite uma imersão sociocultural e política profunda, especialmente quando resgata elementos históricos sob um realismo alegórico. Se em Bacurau isso se deu de um modo, em O Agente Secreto ocorre de outro, por meio de um fio narrativo que remete à luta daqueles que resistem à invasão abusiva e à exploração das riquezas do país, ainda que, por vezes, essa resistência pareça morrer temporariamente. Como ocorre com tantas figuras que postularam um lugar na história de modo direto ou indireto, fomentando agentes secretos brasileiros, ocultos por certas perspectivas, mas influentes e valorados por outras de maior alcance e temporalidade.
O personagem Marcelo, vivido por Wagner Moura, representa alguém que trabalhou pelo desenvolvimento tecnológico e pelo progresso econômico, mas que se vê acossado pela ganância. Ele se torna, assim, um agente de um povo que luta secretamente, em sua simplicidade e potência, contra forças que, em 1977, não eram secretas em suas ações, mas ocultavam explicitamente suas intenções de apropriação. Um autoritarismo sistematizado que beneficiava poucos, enquanto promovia uma autodilapidação nacional.
Há muito a se ver nesse filme. Seu valor como obra de arte se amplia ao funcionar também como fala popular, ainda que secreta em sua potência. Talvez falar assim seja uma forma de acolher aqueles que se veem no polo antagônico, mas não têm coragem de reconhecer os danos causados. Ainda assim, abre-se a possibilidade de reconciliação com a história e de transformação social e econômica por outra via: a do reconhecimento.
O filme funciona como um espelho cru. Revela que o rei sempre esteve nu, mas também reflete uma paisagem atravessada por um sol poderoso que nasce no Nordeste, percorre o Brasil e se torna universal. Essa universalidade surge justamente por se entregar à verdade crua, ainda secreta, mas já falante, insistente e viva. Uma vida que não se cala e que supera a negação, afirmando a afeição do país por si mesmo.
Nos anos 2000, houve um impulso importante no campo cultural cinematográfico, marcado por Cidade de Deus, divisor de águas do cinema mundial. Sua linguagem lançou novos atores e atrizes, muitos até então desconhecidos, revelando talentos e mostrando que havia um vácuo de valorização e investimento na sétima arte. O filme, embora injustamente não tenha recebido nenhuma estatueta, obteve quatro indicações ao Oscar — número que agora se repete com O Agente Secreto, que se projeta a partir de uma matriz nordestina, dando voz a angústias antes silenciadas.
Nesse sentido, ecoa a fala de Wagner Moura ao receber o Globo de Ouro: o trauma se desfaz com a fala. O filme contribui para isso, convidando-nos a ouvir o que ele diz. Não por acaso, muitos contextos e fatos mundiais encontram nele pontos de identificação.
Por fim, destaco a importância do apelo de Kleber Mendonça Filho para que novos cineastas se aventurem por esse sertão fértil. A cultura precisa de incentivo e investimento contínuos, não apenas como expressão simbólica, mas como força econômica e estrutural. Países que compreenderam isso no pós-guerra investiram estrategicamente na cultura como trabalho, desenvolvimento e identidade. No Brasil, esse caminho ainda é desigual, o que torna emergente a valorização do investimento local, do talento e do empenho de quem sabe que é preciso plantar para colher e, ao mesmo tempo, contar histórias que atravessam e sustentam esse fazer tão necessário e importante.
Trailer oficial do filme "O Agente Secreto"
Fotos: Foto 1 de divulgação do filme O Agente Secreto e foto 2 uma edição com as fotos de divulgação de Cidade de Deus e o Agente Secreto.
Vídeo: Trailer oficial do filme O Agente Secreto postado no Canal do Ingresso.com no YouTube




![Para Além da Maioridade Penal: É Preciso Reformar o Sistema Penal [Parte 3]](https://static.wixstatic.com/media/f58bd7_6304a03ca3f045b68f0951893abbca04~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_735,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/f58bd7_6304a03ca3f045b68f0951893abbca04~mv2.jpg)
![Para Além da Maioridade Penal: É Preciso Reformar o Sistema Penal [Parte 2]](https://static.wixstatic.com/media/f58bd7_411c6a83c10349029f66a3143acd337b~mv2.png/v1/fill/w_980,h_751,al_c,q_90,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/f58bd7_411c6a83c10349029f66a3143acd337b~mv2.png)
Comentários