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A Alegria e o Olhar Sobre os Outros Dias

  • anozmundo
  • 14 de fev.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 15 de fev.




[ por Adriano A. Barboza | 14/02/26 ]


 

Ah, mundo tão desigual

Tudo é tão desigual

Oh-oh-oh-oh-oh-oh

 

Ah, de um lado esse carnaval

Do outro, a fome total

Oh-oh-oh-oh-oh-oh

 

Os refrões da música A Novidade, composta por Gilberto Gil, Bi Ribeiro, Herbert Vianna e João Barone, ecoam como um canto antigo — e, paradoxalmente, atual demais. Não porque a festa seja um erro — longe disso —, mas porque o contraste insiste em se impor como uma ferida aberta.

 

O carnaval celebra a vida, e isso é necessário. A alegria também é um direito. O problema começa quando ela se torna um véu espesso demais, incapaz de deixar passar o que dói, o que falta, o que clama por dignidade.


A fotografia que vi circular nas redes sociais — sem que eu saiba sua autoria ou o contexto específico em que foi produzida — mostra, de forma direta e objetiva, um deserto de desamparo. Pés em sapatos gastos até o limite, marcados pelo abandono, pela miséria e pelo esquecimento. A imagem não pede explicações sofisticadas: ela se impõe como realidade nua, como aquilo que permanece mesmo quando desviamos o olhar.

 

Pela televisão, vi também imagens recentes do Rio de Janeiro: pessoas cantando cidade maravilhosa, enquanto, fora do enquadramento da festa, a cidade real segue marcada pelo ataque da contra-maravilha — aquela feita de balas disparadas por fuzis, armas que em hipótese alguma deveriam ser aceitas pelas autoridades de segurança pública circulando por quem quer que seja no país. Ainda assim, naturaliza-se o inaceitável. Defende-se o direito à aquisição da primeira pistola como se fosse mais urgente que o feijão, mais essencial que o pão, mais vital que a própria vida.

 

Nada disso é simples, e tampouco se resolve por slogans. Mas tudo possui um modo de ser enfrentado — e ele começa pela consciência, pelo senso de dignidade e pela resistência que nasce do pensamento. Enfrentar não é endurecer o coração, nem sucumbir à lógica da violência. É aprender a driblar, como nos campos de futebol, as armadilhas e as imposições mafiosas que se apresentam como destino inevitável.

 

Essas armadilhas só se sustentam quando nos convencem de que não há alternativa. Por isso, é preciso apoiar projetos, pessoas e políticos comprometidos com a vida — e não com a destruição travestida de ordem. Compromisso com a vida não é discurso inflamado; é trabalho paciente, cotidiano, muitas vezes silencioso.

 

Analisar a realidade não significa ser devorado por ela. Pelo contrário: é buscar modos de compreendê-la, ainda que não prontamente, ainda que de forma paulatina, para então desconstruí-la e abrir espaço a novas formas de existência. Transformações verdadeiras raramente vêm aos gritos. Muitas vezes, acontecem a conta-gotas, quase invisíveis, mas persistentes.

 

Aquela imagem — anônima, deslocada de seu contexto original — não perde força por isso. Ao contrário: ela se torna ainda mais perturbadora, porque poderia ser de qualquer lugar. Ela lembra que podemos, e devemos, coabitar mundos: o da festa e o da reflexão, o da alegria e o da justiça, o do corpo que dança e do olhar que não desvia.

 

A vida é, e sempre será, mais eloquente.

É preciso deixá-la fluir —

com a nossa contribuição talvez mínima,

mas certamente indispensável.

 

Pensar, lembrar, resistir e, ainda assim, celebrar:

talvez essa seja, hoje,

a forma mais digna de viver.



 

Fotografia: Extraída da internet em rede social de autoria não identificada.

 
 
 

1 comentário

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Karenina
15 de fev.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Necessária a reflexão e bonita conclusão! Obrigada amigo!

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