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[2026] Relógios Voltados ao Sol

  • anozmundo
  • 29 de jan.
  • 6 min de leitura

Os olhos e as coisas reveladas à luz do discernimento





Começo este artigo colocando em pauta algumas questões que não passam pela crença ou pela superstição, como se poderia supor à primeira vista, mas por uma perspectiva inerente a um relógio que o tempo ainda não suprimiu. Um relógio que só é substituído pelos de corda ou de pilha quando as condições assim o exigem — à noite ou em dias nublados —, momentos em que o relógio de sol deixa de expressar o tempo não por falha em si ou por limitação material, mas por obedecer a um movimento natural e dinâmico. Nesse mesmo princípio de circularidade e retorno, os modos posteriores movidos à pilha conservam seus marcadores e funções alimentados, direta ou indiretamente, pela energia solar.


 Ao tratarmos do tempo e da noção que dele fazemos, concebemo-nos adaptados àquilo que a natureza expressa de modo cíclico. Mesmo em tempos de intensa artificialidade, observa-se uma tentativa recorrente — e infelizmente equivocada — de ajustar o natural, invertendo posições ao colocá-lo em modo artificial, como se pudesse ser por ele substituído.


É do nosso tempo que devo falar. Um tempo em que a subjetividade acaba amarrada e, não raras vezes, substituída por aquilo que a imagem projeta como ideal ou como experiência vivencial presumida, em modo ultraprocessado e em tempo integral. Uma lógica de alta performance que se impõe como garantia de qualidade — e é precisamente sobre isso que precisamos nos deter.


Algo relativo à referencialidade é oportuno e necessário em qualquer modo de vida. Mas o que isso quer dizer? Durante muito tempo, a referência foi aquilo que nos permitiu projetar o tempo — passado, presente e futuro — em um simples relógio. E a sua expressão mais original e poética se dá no relógio solar. Por quê?


Porque, diferentemente do relógio digital, que expressa dígitos de forma estanque e sem margem de projeção, o relógio analógico originado do solar — na parede, em monumentos ou no pulso — tem como princípio a harmonia do esférico e do circular, ao menos em sua concepção original. Essa forma guarda relação direta com o movimento do universo e do planeta em torno do sol.


 

Selo postal francês (1974) em homenagem a Nicolau Copérnico, lançado por ocasião dos 500 anos de seu nascimento, celebrando a revolução heliocêntrica que redefiniu a compreensão moderna do cosmos.
Selo postal francês (1974) em homenagem a Nicolau Copérnico, lançado por ocasião dos 500 anos de seu nascimento, celebrando a revolução heliocêntrica que redefiniu a compreensão moderna do cosmos.


Mais do que uma dimensão simbólica ou instintiva, há algo ainda mais importante: os ponteiros em constante movimento. A posição de cada um deles está sempre vinculada a um valor temporal que se estabelece em ordem crescente e circular, em relação ao que veio antes, ao que está em curso e ao que virá depois.


O analógico não é apenas uma metáfora; é, cognitivamente, um modo de pensar o tempo — e, por extensão, a própria vida. Nesse ponto, poder-se-ia evocar a dialética hegeliana, que nos coloca diante de um caminho que se conhece no próprio percurso e que, no retorno, encontra o seu avesso: o movimento que permite o reconhecimento. É nesse fazer o caminho de volta que se configura, de fato, o reconhecimento de tempo e espaço, cujo objeto em mutação — passível de transformação — é o sujeito que nele transita e pensa, fluindo sobre uma base referenciada e referencial.

 

Não obstante, vivemos tempos de alta performance e de presença contínua, intensificados por aparatos tecnológicos que tendem a substituir a instrumentalidade humana. Ainda assim, não se deve perder de vista a noção que o analógico nos oferece: a leitura do tempo como projeção, elemento fundamental na constituição da subjetividade. É a partir dela que se compreende o que pode ser feito dentro do inescapável binômio entre ideal e possível — termos que não se excluem, mas operam conjuntamente. No possível, guarda-se a experiência do passado que, no presente, permite a busca de reconhecimento; no futuro, sustenta-se o ideal que orienta o planejamento, fruto da atuação da subjetividade.

 

Não por acaso, momentos como o Natal e o Ano Novo são tão intensamente valorizados. Eles marcam a passagem do tempo em meio a um cotidiano no qual as referências tendem a se perder, soterradas pela promessa do instantâneo, que ocupa o lugar do processo vivido, percebido e sentido.


O relógio digital, por sua vez, expressa faticamente um horário, mas carece de referências explícitas de passado e futuro. E, por incrível que pareça, estamos sedentos de referenciais — de nós mesmos —, não de ícones isolados que pretendem valer por si. O mundo imaginário é amplo, mas necessita de estágios intermediários para se localizar e fluir. Talvez por isso textos no WhatsApp sejam tão acolhidos: permitem uma linha do tempo, algo a que se possa recorrer. Um ícone isolado, ao contrário, abre-se a interpretações quase infinitas — afinal, toda interpretação é sempre do sujeito que a acolhe.

 

Seguimos, assim, buscando ritos de passagem: aniversários, datas simbólicas, o próprio Natal e o Ano Novo. Estes últimos inscrevem-se duplamente como marcos — simbólicos e factuais — das civilizações. No Ocidente, o tempo passou a ser marcado pelo nascimento de Jesus. Se sua existência não tivesse materialidade histórica e relevância simbólica, dificilmente seu nascimento teria deixado tal inscrição no calendário. Ainda que a oposição religiosa, política e social que marcou sua trajetória oferecesse razões para que sua passagem não se configurasse como marco temporal, presença e passagem afirmaram-se como referência simbólica, temporal e histórica.

 


Imagem de Jesus (sem nome) acervo do Canva
Imagem de Jesus (sem nome) acervo do Canva

 

A história, então, compõe-se também de sua elaboração. São sujeitos que, por não estarem diretamente implicados nos acontecimentos, ainda que atravessados por fatos a eles causalmente conexos, buscam reconstruir o passado a partir de leituras analógicas, traçando modos de reconhecimento. O passado, nesse sentido, não se impõe como dado casuístico e desconexo, mas como aquilo que pede sentido e que, a partir de uma referência interpretada, se constitui em condição para a construção de um presente coerente e consistente. É na sensibilidade desse encontro que se reconhece uma luz referencial, culturalmente estabelecida — uma luz que, tal como o sol, marca o mundo em seus ciclos temporais.


Isso exige de cada uma e de cada um a construção contínua de referências e o exercício permanente da subjetividade. Viver ativamente implica usar as ferramentas de modo consciente, sem permitir que as facilidades substituam não apenas os gestos utilitários, mas, sobretudo, o ato fundamental: pensar.


Ao colocar em pauta aquilo que naturalmente se expressa na forma cuja luz faculta a percepção de quem a observa, percebe-se que, em contraste com o relógio analógico de sol, o relógio de pulso digital adquire novas nuances. Nelas se reflete o conflito entre o individual e o cultural, o pessoal e o coletivo. Não por acaso, muitos desses dispositivos se apresentam hoje apagados, exigindo o acionamento de um botão para que os dígitos se iluminem.


Essa tendência pode ser lida como uma tentativa de apagamento: a imposição de um tempo que já não se preserva como natural. Os movimentos do corpo humano e os ciclos da natureza deixam de se encontrar, como se habitássemos um espaço de vácuo, marcado por instantaneidades e por uma satisfação sedenta que não se contém — nem se realiza plenamente. Revela-se, assim, a tentativa de deter ou conter o tempo, ora como interrupção ilusória do fluxo, ora como sua domesticação individualizada, afastando-o da condição de experiência comum.


É preciso mensurar, em suas devidas medidas, aquilo que se coloca no campo do convívio coletivo e de sua instrumentalização social. As coisas se configuram menos por absolutos e mais pela relação entre meios e fins, pois, sem referência, não há propriamente um fim que não implique um novo começo. Perde-se, assim, uma noção fundamental: a de reconhecer a forma e o tempo adequados de uso, o que exige discernimento. Em meio a tantas distrações e à promessa de uma satisfação plena e imediata, o que frequentemente se encontra é um fim que não sustenta o passo seguinte.

 

É justamente a perspectiva analógica que permite pensar o presente e o futuro como portadores de novos começos, sugerindo que, ao menos no campo da subjetividade, dificilmente há fins absolutos.

 

Nesse sentido, quando se empreende um novo movimento ou percurso no qual se deposita uma expectativa legítima, os romanos diziam: Alea jacta est — a sorte está lançada, e não que será lançada. Ela sempre esteve lançada; o que varia é a capacidade de percebê-la. Cabe, portanto, ao sujeito, em atenção e discernimento, reconhecer o bom encontro e servir-se daquilo que se pode chamar de sorte.

 

Pensar — e repensar — é o movimento revolucionário que mantém o humano no centro de sua própria experiência.

 

Desejo a todas e todos um excelente novo ano!

 

 


Imagens: fotografias e figuras originais, produzidas e editadas a partir do acervo da plataforma Canva, conforme licença de uso.

 
 
 

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