Quem Faz a Diferença
- anozmundo
- 22 de jul.
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[ por Adriano Andrade Barboza | 22/07/26 ]
Copa do Mundo de Futebol 2026
Quando o esperado surpreende, abre-se uma nova perspectiva e alcança-se outro nível de percepção.
Nesse sentido, considero importante observar aquilo que, durante alguns dias, mobilizou milhões de espectadores. Refiro-me ao modo como o esporte desperta emoções, expectativas e diferentes formas de compreender a vida. Mas de que estou falando?
Falo do cenário esportivo e da realidade que se projeta em torno da vitória. Falo também do valor que lhe é atribuído como objeto de reverência, muitas vezes sem que se compreenda plenamente o significado das coisas.
Confesso que, apesar de torcer pela seleção brasileira, senti-me descontente com alguns rumos adotados em campo. Em determinados momentos, a estratégia pareceu excessivamente amarrada e distante daquilo que considero apaixonante e próprio do espírito e do estilo brasileiro. Reconheço as virtudes, a capacidade e a trajetória de Ancelotti. Ainda assim, penso que a experiência à frente de uma seleção em competições dessa natureza constitui fator decisivo para imprimir a identidade, a intensidade e a raça que tradicionalmente caracterizam a seleção brasileira.
Por isso, apesar do valor da trajetória do atual técnico, considero importante voltarmos o olhar para nossos próprios heróis. Tivemos Zagallo e Parreira, juntos, como técnico e auxiliar em 1970 e, em posições inversas, em 1994, conduzindo o Brasil ao tricampeonato e ao tetracampeonato. Tenho para mim a convicção de que devemos valorizar aqueles que mostraram serviço e engrandeceram o espírito de luta nesse campo da vida brasileira.
É o caso de Luiz Felipe Scolari, o Felipão. Um desacerto tático em determinada partida não invalida sua trajetória nem sua capacidade como treinador. Ao contrário, quem sabe uma nova passagem pela seleção possa representar não apenas uma oportunidade de redenção, mas também um gesto de reconhecimento a quem já fez a diferença.
Uma sociedade madura não reduz uma história inteira ao seu momento mais difícil. Ela sabe reconhecer o mérito, valorizar a experiência e compreender que, muitas vezes, a superação é a mais significativa das vitórias.
Mesmo descontente, mantive a esperança durante os momentos decisivos da campanha brasileira. Houve ocasiões em que a equipe pareceu reencontrar mobilidade, criatividade e presença ofensiva, alimentando a sensação de que a persistência poderia alterar o rumo da partida. No esporte, como na vida, pequenas decisões nem sempre produzem os resultados esperados, mas sempre deixam espaço para diferentes interpretações.
Essa mesma persistência também se fez presente em outras seleções. Em momentos improváveis, algumas equipes encontraram forças para superar dificuldades e reverter situações aparentemente desfavoráveis. É justamente essa capacidade de continuar acreditando que torna o esporte tão próximo da experiência humana.
Nem tudo, porém, se resume ao jogo. A competição também foi marcada por episódios lamentáveis dentro e fora de campo. Houve manifestações de racismo, xenofobia e intolerância que jamais deveriam encontrar espaço em qualquer ambiente esportivo. Em determinadas partidas, decisões da arbitragem também suscitaram dúvidas e reacenderam um debate permanente sobre o equilíbrio entre a interpretação humana e os recursos tecnológicos disponíveis para tornar o jogo mais justo.
Sinceramente, é difícil compreender que situações passíveis de esclarecimento continuem alimentando controvérsias quando a tecnologia oferece instrumentos capazes de ampliar a segurança das decisões. Ainda assim, nenhum recurso substitui o compromisso humano com a coerência, a imparcialidade e o senso de justiça.
Todavia, também compreendo a emoção daqueles que, mesmo acostumados às maiores conquistas, experimentam a dor da derrota. O esporte possui essa capacidade singular de lembrar que talento, esforço e dedicação não eliminam a possibilidade do fracasso. Talvez seja justamente isso que o torne tão profundamente humano.
De todo modo, a questão principal continua sendo outra: os atos de racismo e xenofobia. Nesse aspecto, considero digna de reconhecimento toda cultura que busca cultivar a convivência entre diferentes povos, respeitando suas especificidades socioculturais, seus contextos históricos e seus modos de vida, todos eles resguardando a riqueza existencial inscrita em determinado conjunto social. Evidentemente, nenhuma sociedade está livre de desafios ou desigualdades. Ainda assim, algumas experiências demonstram que a diversidade pode constituir uma força, e não uma ameaça.
É nesse horizonte que se destaca Lamine Yamal. Sua relação afetiva com a família e com suas origens revela a importância de valorizar os lugares onde as pessoas nascem, crescem e constroem suas histórias.
Seu irmão mais novo tornou-se uma das imagens mais marcantes da competição ao esbanjar espontaneidade e alegria. Essa cena reflete, sobretudo, o carinho, a atenção e o cuidado que Yamal dedica à sua família.
Segundo seu treinador, Yamal entra em campo com leveza e raramente demonstra nervosismo antes das partidas. De onde vem essa segurança? Creio que ela possa nascer de uma fé profunda, da força que sustenta todas as coisas e, igualmente, da confiança que deposita em si mesmo. Talvez também decorra de uma compreensão muito concreta da própria vida. Em certa ocasião, ao ser questionado sobre a pressão que vivia, respondeu que a verdadeira pressão era a enfrentada por seu pai em seu trabalho diário; ele, afinal, apenas jogava futebol. Poucas respostas traduzem com tanta simplicidade a grandeza de quem mantém os pés no chão.
Outros heróis também revelaram grandeza ao longo da competição. Em meio aos descaminhos do futebol, mostraram que existem valores muito maiores do que o simples resultado. É o caso da seleção de Cabo Verde, cuja campanha simbolizou organização, entrega e dignidade, impulsionada pelo protagonismo carismático de Vózinha. Sua história transformou aquilo que antes poderia soar depreciativo em motivo de orgulho, identidade e inspiração.
No fim, permanece aquilo que verdadeiramente merece reverência: o esforço, a dedicação e a capacidade de disputar um jogo leal. São esses valores que permitem enfrentar adversidades históricas vividas por povos que foram depreciados, escravizados ou continuam submetidos, sob novas formas, a condições de trabalho e de vida que exigem dribles cotidianos e defesas permanentes para não perder o jogo da própria existência.
Por isso, recordo um antigo provérbio africano que sintetiza bem essa compreensão:
"Vá rezando, mas vá fazendo."
Nas sociedades em que se louva a Deus, deve-se, no mínimo, fazer a própria parte para que Ele exista e esteja presente na prática daqueles que Nele depositam sua fé.
Imagem: Figura elaborada com auxílio de inteligência artificial.






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