O Despropósito

[ por Adriano Andrade Barboza | 09/09/2026 ]
Não faz muito tempo que o país viveu momentos profundamente dolorosos, quando até mesmo ossos passaram a ser comercializados em açougues como alternativa alimentar para parcelas da população. Era um período marcado por maior custo de vida, inflação elevada e desemprego expressivo. Situações dessa natureza revelam o grau de vulnerabilidade a que parte da sociedade pode ser submetida quando as condições econômicas e sociais não asseguram o atendimento de necessidades básicas. Em vez de ampliar oportunidades, determinadas decisões podem favorecer interesses específicos enquanto parcelas significativas da população permanecem expostas às suas consequências.
Além disso, decisões capazes de fragilizar determinados setores da economia nacional, inclusive nas relações internacionais, podem produzir reflexos sobre produtores, exportadores e, por consequência, trabalhadores e famílias de menor renda. Os efeitos podem atingir justamente aqueles que, após longo esforço, conseguiram alcançar alguma melhoria em suas condições de vida e passam novamente a enfrentar dificuldades decorrentes de mudanças econômicas que não consideram adequadamente seus impactos sobre a vida cotidiana.
Entre a Inclusão Financeira e o Endividamento
Quando uma economia se aquece e o crédito se amplia, a expansão da bancarização desempenha papel importante na incorporação de parcelas da população ao mercado financeiro. A oferta de crédito encontra, na renda emergente, um novo campo de atuação, permitindo que pessoas antes afastadas do sistema financeiro passem a financiar uma casa, uma reforma, um veículo ou mesmo bens e serviços que podem representar melhorias concretas em suas condições de vida.
Essa expansão, porém, exige que o crédito encontre uma finalidade capaz de produzir benefícios que ultrapassem o alívio momentâneo. Quando utilizado sem limites ou sem atenção à capacidade de pagamento, o recurso que poderia contribuir para novas conquistas pode transformar-se em obrigações sucessivas, comprometendo a renda futura e convertendo a busca por melhores condições de vida em mais esforço, desgaste e endividamento. O crédito pode, portanto, ampliar possibilidades, mas também restringi-las quando deixa de estar associado a uma perspectiva sustentável de vida.
É nesse sentido que medidas de renegociação de dívidas, especialmente quando acompanhadas de descontos significativos, podem representar uma oportunidade de reorganização da economia individual e familiar. Mais do que reduzir uma obrigação imediata, a possibilidade de reordenar as dívidas pode devolver às pessoas e às famílias alguma capacidade de planejamento e de retomada de projetos que haviam sido comprometidos pelo endividamento.
O crédito, nesse sentido, não é apenas uma operação financeira. Ele pode participar do processo de ascensão social ao ampliar o acesso a oportunidades antes restritas. Para parcelas da população que passaram a ter renda mais estável e acesso ao sistema financeiro, essa possibilidade representa uma mudança concreta na forma de projetar a própria vida e realizar melhorias que antes pareciam distantes.
Os Limites da Inclusão Econômica
Essa incorporação, porém, não elimina as desigualdades que permanecem inscritas na realidade brasileira. Nas periferias de grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro, décadas de abandono e insuficiência de políticas públicas contribuíram para a permanência de condições que favorecem a expansão de mercados ilegais e de formas graves de violência.
É justamente nesse contraste que o problema se evidencia: enquanto parcelas da população conquistam maior inserção econômica e financeira, outras continuam submetidas à ausência de condições básicas de estrutura social e de segurança, limitando suas possibilidades de desenvolvimento. A distância entre essas realidades também se expressa na própria ação do Estado, especialmente na segurança pública, quando medidas capazes de ampliar o controle e a transparência da atuação policial são evitadas. O uso de câmeras corporais, por exemplo, pode reduzir abusos, registrar ocorrências, produzir provas e oferecer maior clareza sobre a atuação das forças de segurança no enfrentamento da violência e do crime.
A consideração da distância entre diferentes condições de vida social, quando estabelecida como inevitável e sem possibilidade de transformação, não pode ser reduzida a uma simples disputa em torno da divisão econômica. Muitos investimentos podem e devem ser direcionados ao bem comum, alcançando todas e todos, independentemente do grupo econômico ao qual estejam situados. Essa é uma das formas de promover a melhoria da qualidade de vida em uma perspectiva social coletiva, conjuntamente com instrumentos de fortalecimento da economia, ampliação das oportunidades e qualificação da renda.
A condição de fragilidade social, produzida e reproduzida por diferentes fatores que repercutem de modo sistêmico no conjunto da sociedade, não deveria ser utilizada como instrumento de conveniência política por grupos que exploram a insatisfação social sem enfrentar suas causas. Quando a precariedade e a violência persistem sem respostas efetivas, cria-se um ambiente no qual o próprio sofrimento da população pode ser convertido em recurso político, sem que isso se traduza em soluções efetivas ou em consequências socialmente positivas.
Quando a Pressão Econômica se Torna Política
É nesse ponto que ações irresponsáveis, motivadas por interesses circunstanciais ou questões menores, podem adquirir consequências muito maiores do que aquelas que aparentemente pretendiam produzir. Isso também pode ser observado em determinadas regiões onde o caos e a violência se prolongam diante da ausência de respostas efetivas do poder público, dificultando qualquer melhoria consistente das condições de vida.
O problema se torna ainda mais grave quando situações dessa natureza deixam de ser enfrentadas e passam a ser toleradas ou instrumentalizadas por grupos que delas procuram extrair vantagens políticas, econômicas ou eleitorais. Como admitir que a precariedade, o abandono e a violência possam se transformar em recursos para interesses particulares, enquanto a população permanece submetida às consequências de um problema que poderia ser enfrentado pelo próprio poder público?
Medidas de represália comercial utilizadas como instrumento de pressão sobre um país ou sobre determinados setores não atingem apenas governos ou agentes econômicos diretamente envolvidos. Seus efeitos alcançam empresas, trabalhadores, produtores e consumidores, distribuindo prejuízos por toda a cadeia econômica e fazendo recair sobre a população custos de decisões das quais ela não participou.
Os chamados tarifaços expressam esse problema. Mais do que uma medida comercial, sua utilização pelo governo norte-americano, articulada à pressão promovida pelo grupo Bolsonaro, passou a funcionar como instrumento de coerção política. A estratégia buscou produzir instabilidade econômica e pressionar as instituições brasileiras, criando condições para interferir nos processos de Justiça e no funcionamento do Estado Democrático de Direito. Os prejuízos econômicos produzidos ou pretendidos pela medida dão continuidade, por outros meios, à investida contra a democracia e às tentativas de interferência nas decisões soberanas do país.

A elevação unilateral de tarifas, portanto, ultrapassa a dimensão comercial e assume caráter de pressão e retaliação política. Ao atender a interesses do grupo Bolsonaro, a medida também protege interesses econômicos dos Estados Unidos, que podem obter ganhos sobre determinadas importações no curto prazo. Entretanto, seus efeitos alcançam igualmente o país que impõe as tarifas, com aumento de custos para empresas e consumidores e possíveis perdas de mercados.
Desse modo, evidencia-se uma contradição no discurso de oposição do grupo Bolsonaro. Ao mesmo tempo em que contribui para uma pressão externa capaz de produzir prejuízos à economia brasileira, a oposição utiliza os preços elevados como argumento político, embora o governo anterior que participaram e foram responsáveis tenha convivido com forte inflação de alimentos. Em 2022, por exemplo, o grupo Alimentação e bebidas acumulou alta de 11,64%, enquanto o IPCA — Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, principal indicador da inflação oficial brasileira, calculado pelo IBGE — registrou alta de 5,79%, conforme apresentam os dados no comparativo entre governos Bolsonaro e Lula.
O mesmo ocorre com o discurso sobre a dívida pública, frequentemente apresentado como se representasse uma dívida diretamente transferida às famílias. A dívida pública é uma obrigação do Estado e precisa ser compreendida em relação ao tamanho da economia e à capacidade do país de gerar recursos para sustentá-la. É nesse sentido que a relação entre dívida e PIB se torna importante: ela permite avaliar o peso da dívida diante da riqueza que o país produz. Segundo a OCDE — Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, organismo internacional que reúne países e produz estudos e indicadores sobre economia e políticas públicas, a dívida bruta do governo geral brasileiro correspondia a 77,7% do PIB em 2025.

O Problema que Retorna Como Argumento
O problema econômico mais grave estaria em permitir que uma pressão externa dessa natureza se convertesse em perda de atividade, emprego e capacidade de investimento. Um choque prolongado sobre exportações, empresas e arrecadação poderia reduzir o crescimento, ampliar a necessidade de financiamento público e restringir o espaço para investimentos. É justamente nesse ponto que os tarifaços poderiam atingir diretamente a população: não apenas pelo preço de determinados produtos, mas pela redução de oportunidades econômicas, de empregos e da capacidade de consumo das famílias.
Por isso, a resposta aos tarifaços não poderia ser tratada apenas como uma disputa política. A diversificação dos mercados, a negociação diplomática e as medidas de sustentação da atividade econômica constituem formas concretas de reduzir seus efeitos. Ao preservar empresas, produtores, exportações e empregos, o país também protege a renda das famílias e evita que uma pressão comercial externa se transforme em uma crise econômica interna.
A contradição, portanto, está em utilizar como argumento contra o governo justamente problemas que determinadas ações políticas poderiam agravar e que os tarifaços ameaçavam aprofundar, mas cujos efeitos o governo soube conter e superar. Criticar preços e endividamento exige considerar as condições que produzem esses resultados e, sobretudo, as consequências das alternativas propostas. Não basta apontar o problema: é necessário avaliar se a própria ação política contribui para agravá-lo ou para solucioná-lo.
Quando a Crise Encontra Outra Resposta
Governos também revelam sua capacidade de gestão diante das crises. A experiência brasileira durante a Covid-19 mostrou as consequências da ausência de planejamento e de uma resposta adequada, levando o país ao segundo maior número absoluto de mortes, atrás apenas dos Estados Unidos.
Agora, diante de uma crise econômica e política provocada pelos tarifaços, essa capacidade é novamente colocada à prova. A diferença está na resposta: ações diplomáticas e econômicas buscaram preservar empresas, produtores e empregos, evitando que o conflito comercial produzisse danos maiores à economia nacional.
Para o Brasil, uma resposta consistente reside na diversificação dos mercados. Buscar novos destinos, fortalecer relações existentes e ampliar as exportações reduz a dependência de setores produtivos excessivamente direcionados aos Estados Unidos e amplia a capacidade de reação do país.
O desenvolvimento econômico exige justamente o contrário da lógica da represália: ampliar relações, diversificar oportunidades e construir alternativas. Quando decisões internacionais são tomadas por interesses menores, seus custos podem recair sobre milhões de pessoas que não participaram delas. Por isso, a responsabilidade econômica deve considerar não apenas a intenção de uma medida, mas também suas consequências concretas.
O cenário interno, marcado pelo menor desemprego da história, pela inflação dentro da meta e pelo aumento da renda, também contribui para enfrentar os efeitos externos. A ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5.000,00, a redução gradual da tributação nas faixas seguintes e a recuperação da renda real fortalecem o consumo e movimentam diferentes setores da economia que já se inicia para 2027.
Essas condições ajudaram a limitar os efeitos dos tarifaços. A expansão dos mercados de exportação ampliou as vendas externas e contribuiu para preservar postos de trabalho. Assim, diante de uma medida que poderia produzir prejuízos econômicos mais profundos, o país encontrou alternativas por meio da diversificação comercial, da ação diplomática e de medidas internas de sustentação da economia com apoio econômico aos setores produtores e exportadores.
O contraste com a experiência da Covid-19 torna-se, portanto, significativo. Em uma situação anterior, a falta de planejamento e de resposta adequada agravou as consequências da crise; agora, diante de uma nova adversidade, a ação governamental buscou impedir que interesses políticos e comerciais externos se convertessem em perdas econômicas de grande escala. Trata-se de uma diferença concreta na forma de enfrentar uma crise, com efeitos sobre a economia, o emprego e as condições de desenvolvimento do país.
Apesar das tarifas impostas ao Brasil por alguns parceiros comerciais, o governo brasileiro buscou enfrentar esse cenário por meio da expansão e da diversificação dos mercados de destino para os produtos nacionais. Entre as medidas adotadas estiveram negociações comerciais conduzidas pelo governo, que resultaram na abertura de centenas de novos mercados para exportações brasileiras, ampliando o número de países aptos a importar produtos nacionais.
Quanto aos resultados, os dados oficiais da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC) mostram que o Brasil registrou recorde de exportações em 2023 e voltou a superar essa marca em 2025, alcançando o maior valor anual da série histórica.
A comparação entre períodos equivalentes também evidencia a evolução do valor exportado.
Nos três primeiros anos do governo Bolsonaro (2019–2021),
As exportações somaram US$ 716,1 bilhões;
Com média anual de US$ 238,7 bilhões.
Já nos três primeiros anos do governo Lula (2023–2025),
O total exportado alcançou US$ 1,025 trilhão,
Com média anual de US$ 341,7 bilhões.
A abertura de novos mercados constitui uma das iniciativas adotadas pelo governo para ampliar as oportunidades de comercialização da produção brasileira no exterior e reduzir a dependência de mercados específicos. Entretanto, os dados oficiais não permitem atribuir, de forma isolada, o desempenho das exportações a essa política, uma vez que o comércio exterior também é influenciado por fatores como a demanda internacional, os preços das commodities, a taxa de câmbio e as condições da economia global.
O Propósito Diante do Despropósito
No fim, o maior despropósito social consiste na perda do compromisso com o bem comum. Quando interesses particulares prevalecem sobre a responsabilidade pública, deixa-se de governar para toda a sociedade e passa-se a administrar conveniências de grupos específicos. Nenhuma nação alcança estabilidade duradoura dessa forma.
O desenvolvimento exige planejamento, compromisso institucional, responsabilidade política e, sobretudo, respeito à dignidade das pessoas. A partir desses fundamentos, a vida coletiva pode encontrar um caminho consistente de prosperidade, segurança e justiça social.
Isso exige que os problemas sejam discutidos com seriedade, honestidade intelectual e compromisso com a realidade. Somente assim será possível compreender seu contexto, identificar suas causas e construir soluções capazes de responder, em larga escala, às demandas da população.
Um exemplo dessa necessidade está na própria relação entre renda e condições de vida. Entre 2019 e 2022, o aumento nominal do salário mínimo não foi acompanhado, de forma equivalente, pela preservação de seu poder de compra diante da cesta básica. A forte elevação da inflação, especialmente dos alimentos, reduziu parte do ganho proporcionado pelo reajuste nominal, enquanto o desemprego permaneceu em níveis elevados antes de iniciar sua trajetória de redução. Receber mais, portanto, não significou necessariamente poder comprar mais ou viver melhor.
Entre 2023 e 2025, esse quadro apresentou mudanças importantes. O salário mínimo continuou sendo reajustado acima da simples recomposição nominal, enquanto a relação entre sua renda e o custo da cesta básica mostrou recuperação gradual. No mesmo período, o desemprego apresentou redução contínua, ampliando as possibilidades de inserção e permanência no mercado de trabalho. A inflação dos alimentos, depois da forte aceleração observada em 2024, também passou por mudanças, reforçando a importância de observar não apenas a renda recebida, mas aquilo que ela efetivamente permite adquirir.
Esses movimentos ajudam a demonstrar que a melhoria das condições de vida depende de um conjunto de fatores que precisam avançar de maneira relativamente equilibrada. Salário, emprego, inflação, custo dos alimentos e poder de compra não são elementos isolados. Quando um deles se deteriora, pode comprometer parte dos ganhos obtidos nos demais. Por isso, políticas públicas responsáveis não devem se limitar ao aumento nominal da renda, mas buscar criar condições para que esse aumento se converta em melhoria real da vida.
É desse compromisso com a realidade, e não com conveniências circunstanciais, que pode surgir um propósito público orientado pelo progresso, pelo desenvolvimento consistente e pela preservação do bem comum. Quando esse compromisso é abandonado, o despropósito deixa de ser uma exceção e passa a orientar a própria realidade social.
Fontes e créditos das imagens:
Imagens 1 e 3: elaboração do autor com auxílio de ferramenta de inteligência artificial, utilizando dados do IBGE. Imagem 2: composição do autor a partir de manchetes publicadas em Hora do Povo (07/09/2025) e Folha de Pernambuco (07/09/2026).






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