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Não é Ficção: A Realidade da Violência e a Busca Pelo Poder

anozmundo
28 de ago.
10 min de leitura

Atualizado: 29 de ago.



[ por Adriano Andrade Barboza | 28/08/26 ]



É possível dizer que existe certa dificuldade em perceber o contexto mais amplo no qual estamos inseridos. Vivemos imersos em uma cultura e em relações coletivas que influenciam nossa forma de pensar, agir e interpretar a realidade. Muitas das condições que moldam nossa vida permanecem quase invisíveis, embora estejam presentes e produzam efeitos permanentes. Do que estou falando?

 

Refiro-me aos processos sociais que atuam abaixo da superfície dos acontecimentos. São forças, interesses e relações de poder que atravessam a vida coletiva sem serem facilmente percebidos. A violência, em sua manifestação mais visível, pode parecer um acontecimento isolado ou naturalmente constituído. Contudo, sua estrutura se estende para além daquilo que se apresenta. Assim como veios d'água correm sob a terra e moldam silenciosamente a paisagem, relações sociais e políticas também percorrem a realidade e produzem efeitos que nem sempre reconhecemos. Costumamos enxergar aquilo que está diante dos olhos, enquanto o conjunto que sustenta essa realidade permanece oculto.

 

É dessa perspectiva que nasce este ensaio. Seu propósito é elevar o olhar acima daquilo que se apresenta de forma imediata, como quem utiliza um drone para sobrevoar uma floresta densa em busca de um caminho que, ao nível do solo, permanece invisível. Quando estamos cercados apenas pelo que nos é próximo, perdemos a capacidade de compreender o todo. Sem essa compreensão, torna-se difícil distinguir causas de efeitos, reconhecer interesses que disputam o espaço público e perceber como determinadas formas de poder passam a influenciar nossas próprias escolhas.

 

Por essa razão, este ensaio propõe uma reflexão sobre questões que atravessam a realidade brasileira, especialmente a violência e a ação política diante dela. Interessa compreender quando a atuação pública produz soluções e quando, sob a aparência de resposta, acaba reproduzindo ou ampliando os próprios problemas que deveria enfrentar. Mais do que examinar acontecimentos isolados, procura-se compreender os mecanismos que lhes dão origem e as relações que sustentam sua permanência. Somente a partir desse olhar mais amplo será possível reconhecer o despropósito quando ele deixa de ser um fato excepcional e passa a orientar, silenciosamente, a própria realidade social.

 

Uma sociedade não se transforma pela simples exposição de seus incômodos nem pela substituição de respostas que deixaram de produzir resultados. Resolver problemas exige identificar suas causas, compreender as relações que os sustentam e construir formas efetivas de transformação. As soluções precisam responder não apenas aos efeitos, mas às condições que os produzem, sempre reconhecendo que novos desafios surgirão e exigirão novos aprofundamentos. É justamente nesse ponto que a política encontra seu verdadeiro sentido. Governar não consiste em administrar interesses particulares ou conveniências momentâneas, mas em promover o diálogo, construir consensos possíveis e orientar a ação pública para um objetivo maior: a qualidade de vida da sociedade. Quando esse compromisso se perde, preservam-se as causas enquanto se administram apenas seus efeitos.

 

Quando o Efeito Substitui a Causa

 

Às vésperas de decisões importantes, costumam surgir soluções que aparentam resolver problemas imediatos. Algumas revelam-se alternativas maduras e consistentes. Muitas outras, porém, apenas ampliam dificuldades já existentes. Há questões que não podem ser enfrentadas sem uma leitura crítica da realidade, capaz de distinguir o correto do equivocado e o propositivo do falacioso. O verdadeiro despropósito consiste em combater os efeitos enquanto se preservam as causas. Assim, os problemas apenas mudam de forma e continuam produzindo os mesmos prejuízos.

 

Com a chegada do período eleitoral para os executivos e legislativos estadual e federal, cria-se, em poucos meses, a expectativa de uma grande transformação. Contudo, o que muitas vezes se observa é o agravamento das dificuldades. Propostas apresentadas de última hora, sem planejamento e construção responsável, dificilmente produzem mudanças estruturais. Quando submetidas à aplicação prática, podem revelar novos problemas, sobretudo quando formuladas de maneira simplista e sem considerar as condições que sustentam a vida social. Medidas dessa natureza podem produzir prejuízos significativos e tornar-se um peso ainda maior para a sociedade. Por isso, precisam ser avaliadas com responsabilidade e sem desprezar as consequências que recaem sobre a população.

 

Ao observar alguns estados brasileiros, especialmente Rio de Janeiro e São Paulo, percebe-se uma realidade que destoa do restante do país. Não apenas pelo contingente populacional, mas pelo contínuo processo de deterioração institucional. Essa realidade também revela a dificuldade de compreender a complexidade dos problemas que envolvem essas regiões.

 

Esses problemas são evidenciados pela própria população. No entanto, propostas mais inovadoras e responsáveis nem sempre são cobradas com a mesma intensidade das queixas relacionadas à violência e à precarização de setores essenciais da vida social. Essa assimetria favorece a manutenção de políticas públicas que já demonstraram seus limites. É preciso, portanto, exigir estratégias capazes de produzir resultados efetivos.

 

Novos resultados exigem práticas capazes de responder às condições que os produziram. Não basta reiterar modelos cuja eficácia já se mostrou limitada. É necessário buscar soluções propositivas, orientadas por resultados e capazes de enfrentar os problemas em sua complexidade. Afinal, são os resultados que revelam a efetividade de uma política.

 

Tomar ciência dos problemas e analisá-los criticamente também significa assumir compromisso com sua transformação. Essa postura permite apoiar e incentivar ações mais efetivas, em vez de limitar-se à constatação de suas consequências. Transferir essa responsabilidade para a figura de um candidato pode reduzir a capacidade de análise e participação da própria sociedade. A expectativa de que uma única liderança resolva problemas complexos substitui a compreensão dos processos sociais por uma promessa individualizada de mudança.

 

Lidar apenas com as consequências, sem compreender as condições que as produzem, pode conduzir a soluções aparentes e pouco factíveis. Quando a promessa de mudança não corresponde à realidade do problema, corre-se o risco de reproduzir ou agravar o estado de coisas que se pretendia transformar. Uma construção social mais madura exige que a escolha de representantes não substitua a responsabilidade coletiva de compreender os problemas, avaliar alternativas e sustentar ações coerentes.

 

Isso implica construir projetos e estratégias adequados às demandas da população brasileira. Respostas insuficientes não se restringem ao campo em que surgem. Produzem uma cadeia de prejuízos que alcança diferentes setores e compromete a vida coletiva. O que parece um problema localizado pode, assim, revelar-se parte de uma dinâmica social mais ampla.

 

Um exemplo emblemático está no uso obrigatório de câmeras corporais por policiais, diante da adesão parcial ou da resistência de alguns governos estaduais à sua aplicação. A medida pode contribuir para uma política de segurança pública mais responsável, mas, isoladamente, não resolve o problema. Exige apoio estratégico, condições adequadas de trabalho e recursos capazes de garantir que esses profissionais exerçam suas funções com segurança e preservação de sua integridade física e mental. Submetidos diariamente à violência, à pressão, à coação e, em alguns contextos, à corrupção, os policiais acabam ocupando o elo mais frágil da relação entre os governos estaduais e a população. Essa realidade não pode ser ignorada.





Assim, a vida social torna-se refém da ausência ou da omissão do Estado, especialmente no campo da segurança pública. Em muitos casos, aquilo que deveria constituir parte da solução acaba confundindo-se com a origem do próprio problema. É justamente nesse ponto que o despropósito deixa de ser uma percepção isolada e passa a integrar o funcionamento da própria realidade institucional.

 

Aquilo que deveria ser resolvido transforma-se em uma crise ainda maior e alimenta a descrença da população. Quando as respostas não alcançam as causas, seus efeitos retornam sob novas formas e ampliam aquilo que se pretendia combater. O problema deixa de ser apenas uma questão de resultados insuficientes e revela uma dificuldade mais profunda: compreender aquilo que realmente exige intervenção.

 

Não é diferente nesse caso, ainda que cada localidade possua características próprias. Não basta enumerar dificuldades ou reproduzir discursos genéricos sobre aquilo que incomoda. É necessário compromisso com a realidade, lucidez na análise e responsabilidade para transformá-la. Somente assim será possível substituir respostas imediatas por estratégias consistentes e criar condições para enfrentar efetivamente os problemas concretos.

 

Desse modo, torna-se necessário observar como determinadas situações acabam sendo incorporadas ao cotidiano como se fossem naturais. O estado do Rio de Janeiro, por exemplo, experimentou, nos últimos anos, um processo de abandono político que favoreceu o avanço de organizações criminosas e facções. Os interesses do crime organizado alcançaram espaços institucionais do governo e do Parlamento, constituindo um exemplo do que jamais deveria servir de referência para a vida pública.

 

Não se trata apenas de um equívoco administrativo, mas da consolidação de uma dinâmica de permanência no poder que, em muitos momentos, subordinou o interesse público a interesses particulares.

 

Não é aceitável que comunidades permaneçam afastadas das ações públicas de proteção e melhoria das condições de vida. Tampouco é admissível que moradores precisem pagar pedágios impostos por organizações criminosas para circular nos locais onde vivem. Essas populações tornam-se reféns de uma estrutura de violência na qual tanto o crime quanto a incapacidade de combatê-lo comprometem a possibilidade de uma vida digna. A superação desse quadro não ocorrerá da noite para o dia, mas tampouco acontecerá sem ação consistente do poder público.

 

As imagens de guerras e desastres humanitários costumam despertar solidariedade imediata diante do sofrimento de populações inteiras. Entretanto, nem sempre demonstramos a mesma capacidade de reconhecer situações de desamparo que se repetem diariamente em diversas comunidades brasileiras. Milhares de pessoas vivem submetidas à violência, à restrição de direitos e ao domínio de organizações criminosas. Também os profissionais da segurança pública convivem com riscos permanentes, pressões, sofrimento psíquico e, em alguns contextos, com a corrupção e a intimidação promovidas pelo próprio crime organizado. Em diferentes posições dessa realidade, o sofrimento humano permanece o mesmo e não pode ser naturalizado.

 

Nas grandes cidades, especialmente em regiões marcadas por profundas desigualdades, convivem lado a lado riqueza e pobreza, proteção e abandono, legalidade e domínio criminoso. Entre o confronto armado e as estruturas que o sustentam permanecem milhares de pessoas que apenas tentam viver, trabalhar e proteger suas famílias. Esse cotidiano não pode continuar sendo tratado como uma condição inevitável. O verdadeiro fracasso político consiste justamente em permitir que situações dessa natureza deixem de provocar indignação e passem a ser aceitas como parte da normalidade. Quando isso acontece, preservam-se as causas da violência enquanto se administram apenas seus efeitos.

 

Os inúmeros episódios noticiados diariamente revelam um cenário permanente de aflição. Aos poucos, essas notícias passam a integrar o cotidiano e correm o risco de ser encaradas como algo normal. Contudo, a banalização da violência representa uma das maiores derrotas de uma sociedade. O normal é viver com segurança, respirar tranquilidade e encontrar sentido na vida por meio de oportunidades, desafios e perspectivas capazes de promover o desenvolvimento humano. Quando a violência se torna paisagem, a sociedade corre o risco de perder não apenas a segurança, mas também sua capacidade de indignação.




Quando a Violência se Torna Paisagem

 

O governo de Cláudio Castro aprofundou problemas estruturais do estado do Rio de Janeiro ao não enfrentar adequadamente fragilidades institucionais que exigiam ação contínua do poder público. Ao lado de questões históricas ainda não solucionadas, consolidou-se um ambiente em que parte significativa da população passou, muitas vezes, a viver apenas para sobreviver. Essa condição compromete não apenas as condições materiais de existência, mas também a saúde mental e a própria preservação da vida. O enfraquecimento dos vínculos sociais impede que famílias e comunidades desenvolvam plenamente seus potenciais. Uma sociedade mais próspera exige segurança, estabilidade institucional e políticas públicas consistentes, capazes de transformar avanços graduais em conquistas permanentes.

 

A realidade social oferece sinais constantes e exige interpretação responsável. Aquilo que funciona deve ser preservado e ampliado; aquilo que produz retrocessos precisa ser corrigido. Quando isso não acontece, os prejuízos recaem justamente sobre aqueles que sobrevivem com o mínimo indispensável. Por isso, soluções duradouras dependem de responsabilidade institucional e compromisso público.

 

Em todas essas circunstâncias, torna-se indispensável identificar corretamente a origem dos problemas antes de propor qualquer solução. Quando se combatem apenas os efeitos por meio de respostas apresentadas como simples e enérgicas, como ocorre no debate sobre a redução da maioridade penal, preservam-se as causas que sustentam a criminalidade.

 

Mantém-se, assim, um sistema penitenciário caro, cujo custo médio no Brasil alcançou aproximadamente R$ 2,6 mil mensais por pessoa presa em 2025. Esse dado não revela apenas uma despesa pública. Expõe a necessidade de discutir se os recursos empregados enfrentam as causas da criminalidade ou apenas administram suas consequências, fortalecendo, de fato, um ambiente de justiça e dignidade.

 

Quando instituições administram superficialmente situações que permanecem sem solução, os problemas tendem a se reproduzir e se agravar. Preservam-se as causas enquanto se administram os efeitos. É justamente esse movimento que alimenta o despropósito real.

 

Erros deliberados e escolhas políticas que favorecem o fortalecimento do crime, transformando comunidades em ambientes próximos de uma guerra permanente, representam apenas uma das manifestações dessa lógica. Sem compreender a origem das dificuldades, qualquer resposta tende a permanecer superficial e incapaz de produzir mudanças efetivas.

 

A forma como os recursos públicos são administrados e o desenvolvimento é promovido revela muito sobre a capacidade de gerar renda, ampliar oportunidades e construir relações sociais mais equilibradas. Uma dimensão fortalece a outra. Por isso, a realidade social deve ser compreendida de maneira integrada, considerando o conjunto de políticas e fenômenos que moldam a vida coletiva. Somente uma análise responsável pode orientar o país para o progresso, e não para o retrocesso.


A realidade impõe a necessidade de um trabalho conjunto, em âmbito nacional e estadual, sustentado por estruturas compatíveis com as demandas sociais. São Paulo, por exemplo, poderia avançar na transparência das ações de policiamento urbano por meio das câmeras corporais. Contudo, a medida ainda encontra resistência de gestores que reconhecem a importância da transparência, mas, na prática, se afastam de soluções que apresentam resultados positivos na redução da violência.

 

Esse movimento revela a dificuldade de transformar evidências em políticas públicas sérias e necessárias, capazes de aprimorar os processos de atuação e produzir maior transparência e efetividade no enfrentamento da violência em diferentes dimensões da vida social. Na prática, essa postura acaba por destoar dos interesses manifestos e dos objetivos declarados de promover maior efetividade e aprimorar a segurança pública.

 

O estado do Rio de Janeiro constitui, nesse sentido, um caso não apenas particular, mas emblemático. A violência cresceu enquanto o crime organizado se expandiu por meio de facções e milícias, muitas vezes encontrando conivência política ou até mesmo sendo enaltecido por agentes públicos que passaram a estabelecer relações com aqueles que deveriam combater. Essa aproximação criou obstáculos à investigação e à elucidação do assassinato da vereadora Marielle Franco. O caso avançou posteriormente com a intervenção federal e a continuidade das investigações, resultando na responsabilização dos envolvidos. Ainda assim, parlamentares apontados no processo como mandantes do crime permaneceram sem ter seus mandatos cassados pela Câmara, mesmo diante das denúncias e do processo de acusação e julgamento.

 

É justamente nesse contexto que se deve observar o avanço das milícias, que não apenas deixam de ser efetivamente combatidas, mas ampliam seu espaço no cenário local e sua influência política. Governantes eleitos que administraram o Rio de Janeiro, em articulação com parlamentares de mesma orientação política, pouco fizeram para conter esse avanço. Mais grave, sob essas administrações, recursos de servidores aposentados foram expostos a operações financeiras posteriormente questionadas, como no caso do Banco Master, envolvendo um esquema de fraude bancária cujas relações e responsabilidades ainda precisam ser devidamente esclarecidas.

 

Seus operadores diretos e indiretos acabam se mesclando ao quadro político do estado, enquanto aqueles que deveriam enfrentar o crime insistem no discurso do endurecimento das leis. Pouco fazem, entretanto, para garantir seu cumprimento e criar mecanismos capazes de produzir desenvolvimento e melhorar as condições de vida. O esforço público deveria estar voltado à redução da violência e ao enfrentamento efetivo do crime, não à sua tolerância, anuência ou incorporação às próprias estruturas que deveriam combatê-lo.

  

Imagens: imagem 1 e 3 produzidas por ferramenta de Inteligência Artificial; imagem 2 do acervo do banco de imagens do Canva.

 

 
 
 

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