top of page
Buscar

Busca-Se O Gol, Mas Para Outro Time!

  • anozmundo
  • 5 de jun.
  • 8 min de leitura

Quer Que Traduza?




[ por Adriano Andrade Barboza | 05/06/26 ]


Quando o que se faz não corresponde ao que se diz, trata-se de falsidade. E quando interesses pessoais, políticos e econômicos passam a falar mais alto do que qualquer compromisso público, a mentira deixa de operar apenas como desvio moral e passa a funcionar como instrumento para alcançar posições favoráveis de poder, tornando-se, pela repetição, um modo sistemático de atuação que pode, então, ser denominado como método.

 

Há momentos históricos em que determinadas contradições deixam de operar apenas como detalhe e passam a revelar algo mais profundo acerca da estrutura política e moral de um tempo. Talvez este seja um deles.

 

O que se vê atualmente não é apenas uma disputa de narrativas ou posicionamentos ideológicos, mas um conjunto crescente de incoerências entre discurso e prática, patriotismo e submissão, soberania e dependência. E, curiosamente, aquilo que muitas vezes se apresenta como defesa nacional parece cada vez mais encobrir formas de articulação política e interesses externos traduzidos de outra língua — o inglês.

 

Surpreendentemente, ou talvez nem tanto, o que se vê em certos setores da disputa política parece menos uma ação política qualificada e mais uma avalanche de desastres que se tenta maquiar. Busca-se construir uma imagem de moderação. Fala-se manso, mas com discurso falacioso. E isso já não se consegue mais disfarçar, mesmo quando se tenta apenas insinuar algo sem dizer claramente.

 

E do que estou falando? De algo grave. Algo tão falacioso e simulado quanto processos já vistos antes na história, capazes de levar países e nações ao buraco. Um buraco obscuro, de difícil reparação, que exige esforços profundos e demorados para que se volte a enxergar alguma luz e, mais ainda, para que se consiga sair dele.

 

Há pontos importantes que parecem não apenas sinalizados, mas explícitos. Um deles foi a manifestação de 7 de setembro na Avenida Paulista, marcada pela presença de uma extensa bandeira dos Estados Unidos carregada por grupos que se dizem patriotas brasileiros. A imagem revela um simbolismo político evidente e um alinhamento que ultrapassa a mera admiração cultural.


A Bandeira Estrangeira Como Símbolo Político

 

A própria repercussão pública da enorme bandeira dos Estados Unidos exibida na Avenida Paulista revelou o desconforto simbólico que a cena produziu. Em artigo publicado pela Gazeta do Povo, o colunista Paulo Polzonoff Jr. questionou ironicamente: “Quem teve a ideia de abrir aquela bandeira dos EUA na Av. Paulista?”. O texto reconhecia justamente o efeito contraditório da imagem: grupos que reivindicam para si o discurso máximo do patriotismo brasileiro acabavam associados à exibição monumental de um símbolo estrangeiro em pleno ato nacionalista.

 

O articulista chegou a escrever:

 

“Ela não surgiu do nada. Alguém teve a ‘brilhante’ ideia, que deve ter sido discutida e aprovada com entusiasmo: vamos abrir uma bandeirona dos EUA assim, ó, desse tamanho! Na Avenida Paulista! Em pleno 7 de setembro! Imagino aplausos e gritos de ‘In Trump we trust’. Quem deu a ideia deve ter se achado um gênio. Não duvido nada que tenha deixado escapar uma lágrima quando, na segunda (8), viu sua Stars & Stripes na capa dos jornais.”

 

A frase “In Trump we trust” — traduzida como “Em Trump nós confiamos” — surge como adaptação irônica do lema norte-americano “In God We Trust” (“Em Deus nós confiamos”), evidenciando o tipo de devoção política e alinhamento simbólico que a própria cena parecia carregar.



Mais do que um detalhe estético ou episódico, a cena parece condensar algo maior. O problema já não estaria apenas numa admiração cultural pelos Estados Unidos, mas na forma como certos alinhamentos políticos passam a produzir um patriotismo traduzido — um patriotismo que fala em soberania enquanto se projeta simbolicamente sob outra bandeira. A crítica feita pelo próprio articulista conservador chama atenção justamente porque evidencia que a contradição tornou-se visível até mesmo para setores tradicionalmente próximos desse mesmo campo político.

 

Nesse sentido, a imagem da bandeira norte-americana atravessando a Avenida Paulista talvez funcione como metáfora involuntária de um fenômeno mais amplo: fala-se em Brasil, mas busca-se validação externa; proclama-se independência nacional, enquanto determinados movimentos parecem cada vez mais orientados por interesses, símbolos e articulações que se deslocam para outro centro de poder.

 

Observa-se também a situação da Venezuela, marcada por uma longa crise política, econômica e institucional. O país enfrenta disputas internas e forte influência geopolítica externa, tornando a questão da soberania ainda mais delicada.

 

Nesse contexto latino-americano, surgem também manifestações culturais críticas à submissão econômica e cultural. O cantor Bad Bunny, por exemplo, frequentemente aborda em suas músicas críticas à condição política de Porto Rico, discutindo dependência econômica, turismo predatório e perda de identidade cultural.

 

Embora os porto-riquenhos possuam cidadania estadunidense, Porto Rico permanece como um território associado aos Estados Unidos, sem os mesmos níveis de representação política e garantias plenamente equivalentes aos cidadãos residentes nos estados norte-americanos. Essa condição alimenta debates históricos sobre soberania, autonomia, dependência e identidade nacional.

 

Enquanto isso, os Estados Unidos endurecem suas políticas migratórias e ampliam as deportações, inclusive envolvendo pessoas que vivem legalmente no país e que aguardam — ou aguardavam — a regularização de sua situação. O discurso da liberdade e da democracia passa, muitas vezes, a conviver com práticas rigorosas de exclusão econômica e social.

  

Não se pode analisar o cenário brasileiro sem observar esses elementos. O que parece, em determinados grupos políticos, um fervor patriótico pelo Brasil muitas vezes revela alinhamentos externos e uma linha política já antes desastrosa, que agora pode se mostrar ainda pior. Afinal, pouco se sabe sobre acordos, promessas e articulações feitas longe do debate público brasileiro pela família Bolsonaro.

 

Aliás, falando em algo claro, chama atenção o projeto cinematográfico denominado “Dark Horse”. O título em inglês já desperta simbolismos curiosos. A expressão pode significar tanto “azarão” quanto algo obscuro e inesperado.


Dark Horse, Contradições e Relações Obscuras

 

Talvez não seja um detalhe menor que um filme financiado em meio a tantas controvérsias tenha justamente um nome em inglês, seja falado majoritariamente em inglês e conte com protagonistas e atores estrangeiros.

 

Tudo isso apesar de se apresentar como uma grande produção ligada ao universo político brasileiro e sustentada pela imagem pública de um grupo que constantemente reivindica para si a condição de verdadeiro detentor do patriotismo nacional.

 

Trata-se de um ex-presidente já condenado e preso, além de ainda associado a investigações e acusações gravíssimas relacionadas à tentativa de golpe de Estado e ao chamado plano “Punhal Verde e Amarelo”.

 

O filme ganhou repercussão por notícias envolvendo financiamento milionário ligado a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Segundo informações divulgadas pela imprensa, apenas a participação atribuída a Vorcaro giraria em torno de 13 milhões de dólares, valor que ultrapassa 62 milhões de reais quando convertido. Trata-se de um orçamento que supera o de diversas produções brasileiras de grande reconhecimento internacional, inclusive filmes nacionais indicados ou vencedor do Oscar.

 

As movimentações financeiras relacionadas ao projeto passaram a ser alvo de questionamentos e investigações. Parte das suspeitas envolve repasses internacionais, movimentações entre Brasil e Estados Unidos e relações empresariais ligadas à produtora Go Up, administrada por Camila Gama, o que levanta dúvidas em torno da lógica da operação financeira Brasil-EUA-Brasil, cuja finalidade concreta, a princípio, parece pouco clara.


Nesse cenário, chamou atenção também a sucessão de negativas, contradições e mudanças de versão envolvendo figuras associadas ao projeto. Flávio Bolsonaro chegou a negar relações mais próximas com Daniel Vorcaro e questionamentos envolvendo eventual financiamento ligado ao filme. Contudo, posteriormente vieram a público informações, registros e elementos que passaram a indicar aproximações políticas e empresariais entre Flávio e Vorcaro, relações antes negadas ou minimizadas nas declarações iniciais.

 

O mesmo tipo de contradição passou a atingir outros nomes ligados ao entorno do projeto, como Camila Gama e Mario Frias. Em diferentes momentos, declarações públicas, justificativas e negativas apresentadas acabaram entrando em choque com informações posteriormente divulgadas, gerando ainda mais dúvidas sobre transparência, relações financeiras e articulações políticas envolvendo o filme.

 

Mais do que simples desencontros narrativos, o que começa a chamar atenção é a recorrência de versões que inicialmente negam vínculos, interesses ou movimentações, mas que depois passam a reconhecer fatos e buscar justificativas diante de elementos contraditórios que surgem publicamente. E quando a contradição se torna constante, instala-se inevitavelmente um problema de credibilidade política e moral.

 

O que chama ainda mais atenção é que a Go Up não possuía experiência consolidada nem no setor cinematográfico, tampouco em contratos de infraestrutura tecnológica de grande porte. Ainda assim, a empresa aparece ligada tanto ao projeto milionário do filme quanto a contratos públicos envolvendo instalação de internet wi-fi para a Prefeitura de São Paulo.

 

As investigações apontam suspeitas de sobrepreço e divergências relevantes na execução dos serviços. O contrato previa a instalação de aproximadamente 5 mil pontos de wi-fi, mas parte das apurações indicaria número inferior ao contratado. Além disso, chamou atenção o custo médio por ponto instalado. Segundo comparações divulgadas publicamente, valores praticados no mercado poderiam representar algo próximo de apenas 10% do valor cobrado no contrato firmado pela empresa.

 

Em outras palavras, enquanto determinados serviços poderiam custar algumas centenas de reais por ponto no mercado comum, os valores do contrato alcançariam cifras muito superiores. Isso levanta questionamentos inevitáveis sobre critérios técnicos, capacidade operacional da empresa e possíveis relações políticas envolvidas nos contratos.

 

E talvez seja justamente aí que o simbolismo de “Dark Horse” pareça ganhar outra dimensão. Não apenas pela obscuridade das movimentações e relações políticas que passam a surgir, mas pelo fato de que tudo parece envolto numa tentativa constante de tradução.

 

Traduz-se ao público brasileiro uma aparência de patriotismo enquanto decisões e alinhamentos parecem cada vez mais articulados em outra língua, noutro centro de poder e sob interesses externos; traduz-se soberania enquanto se pratica dependência política; traduz-se moralidade enquanto investigações, contradições e interesses obscuros continuam aparecendo.


Tarifas, Submissão e Ineficácia Política


Tem-se agora um novo conjunto de ações confusas envolvendo novamente o governo norte-americano. Em momentos anteriores, integrantes ligados ao bolsonarismo chegaram a comemorar taxações impostas ao Brasil, mesmo diante de impactos negativos para setores econômicos e famílias brasileiras.


Por outro lado, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva buscou ampliar relações comerciais, abrir novos mercados e manter negociações diplomáticas com os Estados Unidos, inclusive durante o governo Donald Trump. Em determinados casos, essas negociações contribuíram para reduzir tensões tarifárias e preservar interesses econômicos brasileiros.


Mais recentemente, porém, voltou a chamar atenção a aproximação pública de membros da família Bolsonaro com figuras ligadas ao governo Trump. Após visitas, cartas e demonstrações públicas de alinhamento político — incluindo declarações de Flávio Bolsonaro afirmando ter solicitado que não houvesse sobretaxação contra produtos brasileiros — novas pressões tarifárias e comerciais continuaram surgindo posteriormente. O movimento mostrou-se, portanto, ineficaz como influência política concreta em favor do Brasil.


Isso leva a uma questão inevitável: de que adianta tamanha submissão política se o resultado continua sendo economicamente desfavorável ao Brasil ou até mais prejudicial? O que se conclui é que essa postura cada vez mais se mostra perigosa aos verdadeiros interesses do país.


Na primeira sobretaxação comemorada por integrantes do bolsonarismo, em meio à articulação pública de Eduardo Bolsonaro, houve posteriormente um movimento diplomático do governo Lula que buscou negociar e conseguiu reduzir e reverter parte das taxas impostas. Agora, após a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca e suas declarações públicas afirmando ter pedido que as sobretaxações não fossem realizadas, ocorreu justamente o contrário: além da sobretaxa inicialmente anunciada, novas medidas surgiram na sequência, ampliando os prejuízos para empresários brasileiros. Trata-se, no mínimo, de um estranho poder de influência.


O que se vê, portanto, é um conjunto de ações que acaba desnudando a face contraditória de discursos anteriormente sustentados. Pessoas que afirmavam defender patriotismo e soberania frequentemente passam a ser associadas a práticas contraditórias, alianças obscuras e relações políticas difíceis de sustentar publicamente.

 

Também chama atenção o uso político do PIX. O sistema de pagamentos instantâneos foi desenvolvido pelo Banco Central do Brasil durante o governo Michel Temer e lançado oficialmente no governo Bolsonaro. À época, o próprio ex-presidente pouco destacava o projeto. Hoje, porém, o PIX tornou-se alvo de disputas narrativas, interesses econômicos e críticas de plataformas financeiras internacionais.

 

A verdade acaba sendo conhecida pelos atos. Palavras precisam corresponder às ações. E o grupo político ligado a Jair Bolsonaro frequentemente se vê envolvido em contradições, suspeitas e discursos incompatíveis com os fatos apresentados publicamente.

 

Nesse contexto, slogans como “O PIX é do Bolsonaro. O Master é do Lula” parecem operar mais como peças de propaganda política do que como afirmações sustentadas pela realidade factual. Quando a mentira passa a funcionar como método recorrente, instala-se uma política baseada não na verdade, mas na fabricação contínua de versões.

 

Talvez seja justamente isso o mais preocupante: não apenas a existência da mentira, mas a tentativa permanente de traduzi-la como verdade.

 


Imagens:

Banco de imagens do Canva, com edição por inteligência artificial.

Recorte de página digital do jornal Gazeta do Povo, publicada em 04 de junho de 2026.

 
 
 

1 comentário

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Ademir
23 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Muito bem escrito! Parabéns Adriano

Curtir

Contato com site

Mande sua mensagem

Receba atualizações

Obrigado pelo envio!

© 2025 por A NOZ [mundo] com Wix.com

bottom of page