A Páscoa: o que Recebemos e o que Queremos
- anozmundo
- 5 de abr.
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Mesmo o Mínimo Já Seria Suficiente — Mas Foi Dado Mais.

[ por Adriano A. Barboza | 05/04/26 ] .
Na tradição milenar da Páscoa, oriunda do termo Pessach — que significa “passagem” —, rememora-se a libertação do povo hebreu do Egito. Trata-se, fundamentalmente, de uma experiência de liberdade, compreendida como bênção e sentido maior. Nesse contexto, o momento que antecede o domingo de Páscoa, o Seder, configura-se como um tempo de abertura ao reconhecimento e à gratidão pelo amor de Deus.
Nesse rito, encontra-se a canção Dayenu, que expressa uma lógica singular: o reconhecimento de que aquilo que recebemos já seria suficiente — e, ainda assim, foi-nos dado mais. É essa formulação que nos permite interrogar o que de fato queremos, como buscamos e que destino damos às nossas ações.
Na contemporaneidade, observa-se um desejo que, muitas vezes, não é claro ao próprio sujeito. O querer, em si, é legítimo e motor de avanço; contudo, em uma sociedade orientada pela aquisição, a busca incessante por mais acaba por produzir menos — menos satisfação, menos sentido. O movimento do desejo, que poderia apontar para uma ascensão, torna-se, não raro, limitado por formas culturais que orientam a ação para objetos que não libertam, mas reiteram formas de opressão e esvaziamento.
Nesse cenário, o modo como se busca passa a ter mais relevância do que o próprio objeto buscado. A experiência humana, em sua profundidade, corre o risco de ser reduzida a uma superfície onde, mesmo tendo muito, perde-se a percepção do essencial: viver com sentido, em um ritmo que não seja imposto externamente, mas construído pelo próprio sujeito.
Onde, então, situar a renovação? A passagem de Jesus Cristo aponta justamente para o desprendimento frente a uma vida idealizada pelo conforto. O desconforto, longe de ser apenas evitado, é parte constitutiva da experiência humana e pode operar como via de integração e libertação. Ainda que essa integração não se realize de imediato, o simples movimento em sua direção já indica um caminho que se afasta das iniquidades que cada sujeito é chamado a enfrentar em si.
A compreensão da passagem do Cristo não pode servir de justificativa para a repetição consciente do erro. Equívocos fazem parte da jornada; porém, uma vez reconhecidos, exigem reposicionamento. Persistir no erro, já sabido, desloca-se da ingenuidade para a deliberação.
No entanto, observa-se que, em muitos aspectos, a própria vida — inclusive a fé — pode ser capturada por lógicas de mercantilização, aproximando-se, simbolicamente, daqueles que outrora instrumentalizaram o sagrado. O risco reside em legitimar o erro quando se perde de vista o sentido maior.
Diante disso, o sofrimento humano, sobretudo em sua dimensão psíquica, evidencia o peso de uma existência orientada pelo facilitado e pelo imediato, em detrimento do compromisso com o justo. Aquilo que se acumula como garantia de sobrevivência pode ser necessário, mas perde dignidade quando se sobrepõe ao sentido de uma causa que exige resposta.
A cultura, portanto, deve ser interrogada à luz de um pensamento crítico que permita ao sujeito confrontar a si mesmo. É nesse ponto que a angústia emerge como sinal — não apenas de sofrimento, mas de verdade — denunciando aquilo que se tenta ocultar. Ao invés de desviar, ela pode operar como via de transformação.
Nesse horizonte, destaca-se o gesto fundamental apresentado por Jesus Cristo: o amor. Amar, aqui, não como abstração, mas como ato que desestabiliza estruturas cristalizadas e convoca à revisão de si. Trata-se de um movimento que, ainda que lento, orienta na direção do que é mais justo e verdadeiro.
Assim, avançar — mesmo que devagar — na direção certa torna-se a medida possível de uma vida com sentido.
“Olhai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; e, no entanto, vosso Pai celestial as alimenta. Não valeis vós muito mais do que elas?”(Evangelho de Mateus 6:26)
O texto que se segue propõe um exercício reflexivo orientado pela expressão de fé e gratidão, inspirado no cântico tradicional Dayenu, celebrado no Pessach — no qual se afirma que Deus não fez apenas o suficiente, mas muito mais —, buscando reconhecer essa grandeza na experiência humana de fé; trata-se, portanto, de uma livre adaptação que, a partir dessa lógica de reconhecimento, apresenta uma perspectiva analítica e reflexiva sobre a realidade e sobre aquilo que a transcende, organizada em forma de composição nesses moldes:
Dayenu — sobre o que já seria suficiente
Se nos tivesse sido dado apenas o necessário para viver,
e não o excesso que tantas vezes nos dispersa,
já teria sido suficiente.
Mas ainda assim nos foi dado mais: a possibilidade de escolher o sentido.
Se nos fosse concedido desejar,
ainda que sem compreender plenamente o que buscamos,
já teria sido suficiente.
Mas ainda assim nos foi dado mais: a chance de interrogar o próprio desejo.
Se nos alcançasse a consciência do erro,
ainda que atravessada pela angústia e pelo confronto,
já teria sido suficiente.
Mas ainda assim nos foi dado mais: a possibilidade de transformação.
Se nos fosse permitido suportar o desconforto da existência,
sem fugir das provações que nos constituem,
já teria sido suficiente.
Mas ainda assim nos foi dado mais: reconhecer, no próprio caminho, uma via de libertação.
Se nos fosse ensinado amar,
ainda que em meio às durezas e resistências do mundo,
já teria sido suficiente.
Mas ainda assim nos foi dado mais: caminhar, ainda que lentamente, na direção do justo.
Imagem: Banco de imagens Canva.






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