1º de Maio: Entre Trabalho e Vida
- anozmundo
- 3 de mai.
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Atualizado: 16 de mai.

[ por Adriano A. Barboza | 03/05/26 ]
1º de maio — uma data que marca de modo sensível um movimento que, em sua proposição, se define pela afirmação e reivindicação de direitos, a começar pela consideração do trabalho como atividade remunerada e regulada em suas condições. Apesar das tensões implicadas, houve um processo progressivo de evolução, sempre acompanhado da necessidade de garantias de salubridade, valorização da remuneração e respeito. E, ainda assim, é preciso dizer: trata-se de um processo progressivo — não dado de uma vez por todas.
Progressivo — o que se opõe, em alguma medida, ao conservador entendido como fixação. Por isso, manter-se no propósito das garantias não é sinônimo de imobilidade, mas de contínua renovação do que foi conquistado, permitindo seu aprimoramento e a abertura de novos patamares.
Entretanto, a ideia de conservadorismo frequentemente se confunde com a perspectiva garantista, qualquer que seja o valor em jogo. Afinal, conquistar algo e, no movimento de ampliação, perder certas conquistas para obter outras pode reduzir-se a uma mera troca — por vezes improdutiva — e ser percebido como perda, e não como avanço. Daí a necessidade de observar, em sua essência, as questões relativas a direitos e valores: garantir e aprimorar não são termos excludentes.
Quando esse movimento é capturado por uma posição rígida, de caráter quase atávico, o que se tem é algo como uma criança que, ao cursar a quinta série, decide ali permanecer. Aquilo que não se move tende a se tornar nocivo e ultrapassado. Em contrapartida, o impulso de aprimoramento — seja das condições de vida, seja das formas de organização social — é ao mesmo tempo natural e desejável. É no campo do diálogo que se tornam possíveis a renovação de posições, a revisão de pontos e, se necessário, transformações mais amplas.
Afinal, como sugere uma conhecida canção de fim de ano de uma emissora do Rio Grande do Sul, a vida é revolução — mas é também deixar como está. Cabe discernir o que, em cada caso, corresponde a uma ou outra posição em termos de ganho e de avanço; do contrário, a simples mudança pode significar retrocesso.
Sendo assim, diante do que reivindica aprimoramento, é preciso compor um modo de considerar o que, de fato, se faz essencial como ponto crítico — aquele que oportuniza mudança enquanto aprimoramento progressivo, tal como ocorre na natureza, em que as coisas florescem segundo um tempo próprio, em consonância com a dinâmica do ecológico.
É nesse encadeamento que alguns pontos se impõem como centrais, exigindo análise da força de trabalho em termos realizadores — seja no âmbito remuneratório, seja na possibilidade de exercer capacidades que gerem satisfação, domínio e sentido. Trata-se de um fazer inscrito no conjunto mais amplo das relações produtivas e sociais.
Nesse contexto, a revisão da escala 6x1 no Brasil surge como resposta a uma necessidade humana mais ampla: a de tempo para a vida. Tal regime frequentemente suprime dimensões essenciais da experiência pessoal, subordinando o viver a um esforço predominantemente voltado à subsistência. Com isso, o trabalho tende a se aproximar mais do cumprimento de um ofício do que da realização propriamente dita.
É sobretudo a partir da formação e da educação que se ampliam as condições para atender fatores vocacionais e ideais, sustentando formas mais legítimas de satisfação. Nesse sentido, o que antes figurava apenas como ideal passa a se constituir como horizonte efetivo de busca.
Ao mesmo tempo, vivemos um período de reformulação das atividades, atravessado pelo avanço das inteligências artificiais, que devem ser compreendidas como recurso de aprimoramento — e não como substituição do fazer humano. Ganha a sociedade que souber organizar o trabalho de modo eficiente, permitindo ao sujeito experiências fundamentais à vida.
É a partir desse ponto que o desenvolvimento humano se impõe como critério. Questões como as licenças de maternidade e paternidade tornam-se indicativas do valor atribuído à formação da vida. Em diferentes países, o tema ganha centralidade, colocando em foco a necessidade de proteção à criança e à família. Impõe-se, então, a pergunta: de que vale a ampliação da riqueza se não há condições de viver o que é mais essencial?
Considerando dados aproximados em semanas, observa-se que, na Suécia, são cerca de 480 dias de licença parental remunerada (68 semanas), compartilhados entre mãe e pai. A Alemanha oferece até 14 meses (61 semanas), com incentivo à divisão entre os progenitores. A Islândia divide cerca de 12 meses (52 semanas), enquanto a Noruega garante 49 semanas, também em regime compartilhado.
Em um patamar intermediário, o Chile assegura cerca de 6 meses (26 semanas), com possibilidade de compartilhamento, ao passo que a Finlândia dispõe de cerca de 160 dias por progenitor (23 semanas), combinando períodos individuais e transferíveis.
Já em níveis mais restritos, o Brasil apresenta um modelo assimétrico: 120 dias para a mãe (17 semanas, podendo chegar a 26 em programas específicos) e entre 5 e 20 dias para o pai (1 a 3 semanas). A França oferece cerca de 16 semanas, articuladas a políticas de cuidado infantil. Por fim, nos Estados Unidos, há até 12 semanas de licença não remunerada, sem garantia federal.
Essas diferenças traduzem escolhas. Segundo a teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby, os primeiros meses de vida são decisivos para a constituição psíquica. Reduzir esse tempo é, em alguma medida, comprometer o próprio desenvolvimento.
Retoma-se, então, a questão: de que vale a ampliação da riqueza se não há condições de viver o essencial? Entre trabalho e vida, há um intervalo que exige presença, cuidado e tempo — e é nele que se mede o valor de uma sociedade.
O processo de humanização do bebê envolve um conjunto de cuidados de base biopsicossocial, sustentados antes de tudo pela família. No caso brasileiro, aspectos essenciais ainda são, em alguma medida, negligenciados, seja por limitações de políticas públicas, seja por uma cultura que nem sempre prioriza a infância como fundamento da vida social. Investir nesse campo não representa perda, mas ganho coletivo.
É nesse mesmo horizonte que emerge a necessidade de valorizar a terra e a agricultura familiar — responsável por abastecer diretamente a população e por sustentar formas mais equilibradas de relação com o espaço e a produção. Trata-se de reconhecer que a alimentação e a vida saudável dependem de uma base concreta que articula trabalho, território e subsistência.
O que se impõe, portanto, é o empenho por qualificar a vida social: promover prosperidade sem dissociá-la da qualidade de vida. Isso implica articular progresso tecnológico com inteligência social, orientando-os a favor da vida.
Segue o vídeo documentário “Antônio Tavares – O Monumento”, que aborda a luta por condições e espaço para viabilizar a produção agrícola familiar.
A questão da terra, nesse contexto, ultrapassa o campo econômico: trata-se do direito de produzir, habitar e construir pertencimento. Os assentamentos configuram, assim, uma tentativa de dar função social à terra improdutiva.
Em diferentes contextos históricos, experiências de organização coletiva do trabalho agrícola buscaram responder a desafios semelhantes. Entre elas, destacam-se os kibutzim em Israel, cujo primeiro núcleo, Degania, foi fundado em 1909, com base no trabalho coletivo e na autossustentação.
Ao longo do tempo, tais experiências se expandiram e se tornaram referência de organização comunitária. No entanto, em contextos mais amplos, a expansão de assentamentos também se inscreve em dinâmicas de conflito territorial, evidenciando tensões que ultrapassam o campo produtivo.
No Brasil, a luta pela terra igualmente se inscreve em um cenário de tensões. Nesse sentido, registra-se o episódio ocorrido no Paraná, em 2 de maio de 2000, que resultou no massacre de agricultores que se dirigiam a Curitiba em busca de diálogo sobre reforma agrária.
O vídeo, assim, não apenas documenta, mas homenageia aqueles que, por meio da luta, buscam transformar condições concretas de vida. Trata-se de reconhecer que a produção, quando vinculada à terra, não é apenas econômica, mas existencial.
A terra, portanto, deixa de ser apenas espaço de cultivo e passa a se afirmar como lugar de vida, trabalho e dignidade. E, se o trabalho é importante, assim o é por conferir à vida um sentido mais amplo, no qual o desenvolvimento humano, a saúde mental e o bem-estar se colocam como fins. Os indivíduos não devem ser reduzidos a meros meios para a obtenção de recursos financeiros tomados como fim, mas compreendidos, como qualquer instrumento da vivência humana, a serviço de um objetivo maior: o aprimoramento e a construção de uma satisfação efetiva dele decorrente.
Segue o vídeo documentário “Antônio Tavares – O Monumento”.
POEMA DO CERCO DA TERRA
Para José Saramago
Quando tu nos falas
de embargos à toa
e aos poucos recordas
de todos os nomes
e o Evangelho
e o Cerco à Lisboa
e estrelas que morrem
no peito dos homens...
quantos já sumiram
no vazio noturno?
e quantos percebem
que o tempo os consome?
e quantos se perdem
na estrada-absinto?
e quantos sem voz
padecem na fome?
E quantos já cegos
e quantos já mudos
ficaram a esmo
nas pedras da estrada?
quantos já se vão
no peso das guerras
sem voltar jamais
pras suas moradas?
e quantos não tornam
a ver os seus filhos
e desaparecem
em plena jornada?
e perdem o rumo
e não mais se encontram:
vão sem rosto ou cor
bravo camarada.
E quantos degraus
a vida nos toma?
são degraus concretos
de uma escada torta
que aos poucos balança
e desequilibra
e derruba todos
– madrugada morta.
Hoje o cerco atinge
esse mundo todo
e eu fico aflito
nessa marcha insana.
Já não há miragens
já não há oásis:
sangram os desertos
– objetos quase.
Sangram afegãos
sangram iraquianos
sangram os irmãos
e as flores e os anos.
E sangramos todos
nesses desenganos:
mísseis apontados
– fim de sonho e planos.
Vem ver o que resta
– pesadelo imenso
que chega e se espalha –
enquanto eu penso
que nossa esperança
voa lentamente]
e eu quase me apago
na canção demente.
(Alvaro Barcellos)
Foto: Adriano A. Barboza
Vídeo: Vídeo documentário "Antônio Tavares - O Monumento" / Produção e Canal YouTube de A NOZ [mundo]




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